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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Maurício Caleiro: Primavera digital chega ao fim

Primavera digital chega ao fim
texto integralmente extraído de:
O debate político brasileiro vive um momento tenso e contraditório. Embora seja inegável o salto qualitativo propiciado por uma maior penetração de blogs não-corporativos nos dois ou três últimos anos, certos vícios que caracterizaram a atuação de setores da blogosfera no período cobram, enfim, o custo de sua incongruência.
Pertence à lógica mais elementar, inescapável, a conclusão de que se o governo Dilma impinge ao país, neste momento, um duríssimo choque anticíclico – como não se viu igual sequer no turbulento início da presidência de Lula, herdeiro da “herança maldita” tucana – o faz porque há um grave problema com as contas deixadas pelo ex-presidente. Negar a evidência de um pronunciado déficit equivale a incorrer em desonestidade intelectual em nome de interesses político-ideológicos [1].
E distorcer os fatos em nome de tal modalidade de interesses é precisamente a acusação que, de forma muito justa, é recorrentemente feita contra a mídia corporativa. Portanto, os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, não importando quão grave sejam as medidas que este toma, não estão se apercebendo do risco de se igualarem ao “Pig” que tanto criticam.
Dicotomias burras
De minha parte, estou cheio dessas divisões absolutistas e maniqueístas entre nós (os puros) e eles (os corruptos), PT x PSDB, blogosfera independente x mídia corporativa, Lula x FHC, Brasil x EUA. Que me desculpem os fanáticos, mas o mundo não é em preto e branco.
Também me encheu o simplismo fácil com que se usa o termo multiuso PIG (Partido da Mídia Golpista) como explicação para todos os males que nos afligem, como se uma atividade complexa e que envolve milhares de profissionais pudesse ser sempre, inapelavelmente, em qualquer contexto, associada a um rótulo jocoso que não poucas vezes tem servido de bode expiatório e de desculpa para que a esquerda deixe de olhar para seu próprio umbigo e reconhecer seus erros e contradições.
E, por fim, embora considere Lula, disparado, o melhor presidente que o país já teve, não estou disposto a consentir com seu processo de canonização e mitificação, em pleno andamento, e que o presume um ser perfeito, imune a mancadas ou erros e isento de responsabilidades, com uma manada feroz atacando, a la Inquisição Espanhola, quem ousa fazer qualquer restrição ou crítica. Ora, uma das grandezas maiores de Lula, tanto no espectro político quanto humano, é precisamente ter aprendido com seus erros e derrotas e a partir deles se aprimorado para se tornar o excelente presidente que foi e o notável ser humano que é. Santificar Lula, na verdade, o diminui, ao invés de engrandecê-lo.
Cai na real, blogosfera
Não bastasse essa crise ética que se manifesta em setores da blogosfera e os torna similar, em dissimulações interesseiras, à mídia corporativa que tanto critica, Dilma Rousseff, após ter dispensado, por conta do episódio da licença Creative Commons no MinC, um tratamento no mínimo desrespeitoso aos ativistas digitais que tanto a apoiaram, presta-se ao lamentável papel de voar de Brasília para São Paulo para prestigiar, ao lado de toda a fauna tucana, os 90 anos da publicação que mais decaiu eticamente no Brasil na última década, a ponto de dar voz a um aloprado que “denunciou” Lula como estuprador e de estampar ficha policial falsa da pré-candidata Dilma na capa. E compareceu à festa na capital paulista sem um mísero pedido de desculpas em troca.
Ante a reação indignada de setores da blogosfera contra esse autêntico tapa na cara dos que, gratuita e dedicadamente, tanto lutaram pela candidatura Dilma e contra a mídia corporativa que a Folha representa, a reação foi um histérico cala-a-boca, seguido de tentativas grosseiras de desqualificação do interlocutor. Mal posso acreditar que depois de todos os escândalos e absurdos de um jornal que denunciei implacavelmente, vivi para ver alguns petistas igualarem-se a Marcelo Tas e elogiar a Folha por gozar as próprias mancadas. Foi um espetáculo doloroso.
O “argumento” dos que defendem incondicionalmente a presença de Dilma na Barão de Limeira? Não era a pessoa Dilma Rousseff quem lá estava, mas a presidenta. Trata-se de uma premissa duplamente falaciosa: em primeiro lugar, porque não é possível dissociar uma de outra, e foi uma presidenta esquerdista, ex-guerrilheira, de um governo vilipendiado pela imprensa que o povo brasileiro elegeu. Em segundo porque não há razão objetiva nenhuma para um presidente prestigiar a festa de um grupo privado de comunicação, ainda mais sendo este um dos principais responsáveis pela derrocada ética do jornalismo brasileiro. Se Dilma acha que com esse gesto angariará a leniência dos Frias então estamos mesmo perdidos.
(...)
[1] No que concerne especificamente a tais problemas de caixa, a minha crítica não é a Lula por tê-la deixado – isso fatalmente aconteceria no bojo de um crescimento expressivo da economia, ainda mais em ano eleitoral -, mas à retomada da ortodoxia neoliberal promovida por Dilma para lidar com a questão, priorizando uma vez mais o mercado e o grande capital – em detrimento de assalariados e desempregados – ao invés de adotar medidas menos traumáticas, alongando o perfil do pagamento da dívida e fazendo valer o poder de barganha que o Brasil, ótimo pagador, angariou nos últimos anos. Porém, o próprio esforço dos que não admitem nenhuma crítica a Lula ou a Dilma para negar o buraco no caixa é sintomático do quão contaminados estão por premissas do ideário neoliberal no que tange à administração da macroeconomia do país. É a prova da presença insidiosa do neoliberalismo em mentes que se crêem de esquerda.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O futuro governo Dilma e as lições de Maquiavel.


“Nada é tão fraco e instável quanto a potência
 de quem não se apóia na própria força.”

Como se dará a governabilidade para Dilma? Com tradição em quedas de mandatários, o país conviveu na última campanha com termos como “golpismo”, “autoritarismo”, “risco à democracia e a liberdade”. É preciso considerar que a futura presidente enfrentará interesses que transcendem a disputa partidária. Neste cenário, poucos conselheiros seriam tão precisos quanto o polêmico Maquiavel.
Para o autor de O Príncipe, as tropas de um governante seriam de três tipos: próprias, auxiliares e mercenárias. As primeiras seriam leais, ligadas a facção do líder desde sua origem. As segundas surgem de acordos com grupos externos, sendo mais leais a estes. O terceiro grupo é recrutado pelo dinheiro e age em razão deste.
A base política de Dilma é precária já no que tange as suas próprias tropas. Ela não tem liderança histórica dentro de seu partido. Entretanto, se conseguir contar com a lealdade do PT em razão do prestígio de Lula, terá o apoio da maior bancada na Câmara (88 deputados), segunda maior do Senado (11 senadores) e da militância mais bem estruturada do país.  
A principal força auxiliar do governo, o PMDB (16 senadores e 79 deputados), possui um tamanho compatível ao do PT.  Ambos terão cinco governadores, bancada no congresso e tempo de TV parecidos. PT e PMDB também são os partidos com presença significativa em todas as regiões do país e na grande maioria dos municípios. Há ainda forças importantes como o PSB de Ciro e seus seis governadores e do PR e PP que juntos somam mais deputados federais (82) que o PMDB e 7 senadores (o que representaria a terceira maior bancada da casa).
Sobre o perigo do apoio de forças auxiliares Maquiavel dizia: “Se são vencidas, representam a derrota; se vencem, aprisionam quem as utiliza”.  Para o autor, é preferível perder com as próprias forças a vencer com este tipo de ajuda. O risco é que organizadas e leais a outros, estas forças podem usurpar do governante o poder. É possível verificar que o PMDB apossou-se de um espaço caro ao PT no governo que se encerra. Um exemplo disto foi o desgaste de precisar apoiar Sarney quando ele esteve bombardeado por escândalos. Por outro lado, a força adquirida pelo PMDB obrigou o PT a ceder espaço nos Estados na disputa de agora.
Em tempos de paz, as forças mercenárias são as que se aproximam do líder e lhe dão sustentação por interesses econômicos. Com a força econômica do executivo federal, qualquer mandatário terá este tipo de apoio. Ele está difundido dentro dos diversos partidos políticos e nos demais setores auxiliares a um governante, como sindicatos, movimentos sociais, igrejas, imprensa, empresários, dentre outros setores organizados.
Segundo Maquiavel, aquele de depende de mercenários é “despojado na guerra pelos inimigos, e na paz por eles próprios”. Quem apóia por dinheiro, tende a ser indisciplinado e covarde. Ou seja, costuma a se desmobilizar ou mudar de lado quando muda a perspectiva de poder.
O risco causado por forças mercenárias vem da sua inépcia e das forças auxiliares de sua eficácia. Afinal, os primeiros não ajudam o suficiente nas crises, e os segundos podem ter interesse em causá-las.  
O pensador italiano ensinava que muitas vezes é impossível prescindir dos três tipos de tropa para chegar o poder. Entretanto, o êxito de um governo depende do manejo e ponderação destas forças. Logo, a gestão de Dilma dependerá organização dos partidos auxiliares, especialmente o PMDB. Se este estiver disciplinado e leal a uma liderança alternativa, poderá tumultuar o governo. Caso se porte como um “ajuntamento” mercenário, seguirá a maré de popularidade da presidente. Em todo caso, dependerá sempre do apoio Lula. Sem este sequer terá forças próprias para contrapor adversários fora e dentro do governo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma Presidente - A "decisiva" batalha de Minas

Hoje temos a primeira mulher presidente do Brasil. Quais as razões para mais este marco no rol do "nunca antes na história deste país"? Há explicações pautadas na economia, no carisma de Lula, nos erros da oposição, dentre outras. Chama atenção, mais uma vez, a distribuição geográfica dos votos. Serra venceu nos estados do sul, centro-oeste (exceto em Brasília) e em São Paulo. Dilma venceu no nordeste, no norte (com exceção de Roraima e Acre) e em Minas Gerais. Ou seja, a eleição foi novamente dividida entre eixos sudoeste e nordeste de forma clara. - http://eleicoes.uol.com.br/2010/raio-x/2/presidente/votacao-por-estado/
Esta divisão enseja as mais variadas análises. De um lado há a idéia de que o país se divide entre ricos e pobres, entre eleitores mais conscientes e os mais susceptíveis ao populismo. De outro existe o pensamento que o país se divide entre classe ascendente no norte e elite decadente no sul. Esta divisão era prevista. Dela decorreu a tese de que a eleição deveria ser decidida em Minas. Este pensamento demonstra o quanto o país ainda se vê sob a perspectiva da rica região sudeste. Esta visão ofusca a compreensão do processo vivido no Brasil, incluído o entendimento da eleição de Dilma.
Em seu discurso ao fim da apuração, Serra não mencionou o nome de Aécio (mencionou de outros líderes tucanos como Alkimin). Analistas viram neste silêncio a mensagem de que Serra atribui a Minas Gerais peso decisivo em sua derrota. Revelou compartilhar da incompreensão do país que debilitou a oposição nos últimos anos.
Escrevi aqui (http://livrepraque.blogspot.com/2010/05/favoritismo-alem-das-pesquisas.html) que, a despeito do desfecho em Minas, a vitória de Dilma poderia estar garantida por três grandes trunfos - Pernambuco, Bahia e Maranhão. Na Bahia Dilma venceu por 70,85% a 29,15%. Em Pernambuco por 75,65% a 24,35%. No Maranhão por 79,9% a 20,91%. Só nestes estados Dilma obteve uma vantagem de  6.820.910 votos. O quarto trunfo que não antevi foi o Ceará, onde a vitória petista foi de 77,35% a 22,65%, numa diferença de  2.325.841 votos. Assim, nestes quatro estados Dilma obteve uma margem de mais de 9 milhões e cem mil votos de uma vantagem total de 12 milhões de votos no país. Considerando que em Minas se teve cerca de 10,5 milhões de votos válidos, nem se Serra tivesse 100% disto estaria eleito.
O que ocorre é que as sucessivas candidaturas de Lula, seu governo e ampla aliança partidária tornaram a candidatura de Dilma efetivamente nacional. A massacrante vitória nos estados citados são apresentadas aqui apenas como demosntração de como o Brasil é muito muito maior que o sudeste. Atribuir a Minas ou a Aécio o fracasso da oposição é insistir numa visão míope. Qualquer pessoa que deseje se tornar presidente precisa primeiro construir pontes com todo este país de dimensões continentais. Isso vale para a acreana Marina, para o "ceaense" Ciro e certanente valerá também para o mineiro Aécio.  

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pesquisas do Segundo Turno

Datafolha: Dilma 54%, Serra 46%
Ibope: Dilma 53, Serra 47%
Sensus: Dilma 52,3, Serra 47,7%
Vox Populi: Dilma 54,5%, Serra 45,5%


O eleitor do primeiro turno, em regra, já tem um plano B. Quem votou em Marina e nos demais candidatos já tinha em mente em quem votar no segundo turno. Assim, as primeiras pesquisas não mostram exatamente a evolução da intenção do eleitor, mas a reorganização política diante do novo quadro. 53% a 47%, este é mais ou menos o patamar de votos de cada candidato. O eleitor do segundo turno tende a ser menos flexível. A essa altura mudar de candidato parece um pouco como mudar de time. Isto não significa que a eleição está definida em favor de Dilma. Com uma margem tão estreita, fatores como a abstenção ou boca de urna podem ter um peso decisivo.
Se o QG do PT deve estar em alerta e o do PSDB animado, isso pode mudar com as próximas pesquisas. É como num jogo de futebol em que o time que perdia por 2 a 0 faz um gol no segundo tempo. O time que diminuiu a diferença passa a jogar mais animado, mas, se o jogo terminar assim, continuará saindo derrotado.

Voto consolidado.
As medições espontâneas, que indicam o eleitorado mais convicto, apontam Dilma com 45% e Serra com 40%. Assim, existe uma massa "fluida" de eleitores em torno de 15%. É difícil afirmar com precisão o que distingue esses eleitores dos demais. Pode ser que sejam menos interessados por política, seja pela baixa escolaridade, por mera apatia ou maior desilusão com o processo eleitoral. Sabe-se que entre os indecisos costuma haver um percentual maior de mulhers e de eleitores de baixa renda. Na falta de dados mais, é impossível dizer que este eleitor atue de forma diferente dos demais. Fica claro que entre os não convictos, Serra tem que ganhar na proporção de 2 para 1. É um grande desafio considerando os números do primeiro turno.   

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sinal Amarelo?

Jânio de Freitas, jornalista da Folha de São Paulo, certa vez definiu Itamar Franco, quando no exercício da presidência, como um imbecil. A Folha de São Paulo é acusada de manter um cobertura parcial da política nacional. Dentre os casos mais relevantes, a FSP publicou em matéria de capa do jornal uma ficha falsa de Dilma no DOPS que, segundo o próprio jornal, foi recebida por e-mail (ou seja, não foi checada sua autenticidade).
O jornal e o jornalista que tanto extrapolaram no tom da cobertura eleitoral, agora parecem temer os rumos radicais que o processo político pode tomar no país. A capacidade de análise externada no artigo abaixo atesta que a precária linha editorial adotada pelo jornal não se deve a limitações técnicas ou intelectuais de seus colaboradores. Desta vez, o incendiário parece correr para apagar o fogo que tanto atiçou:

Folha de S.Paulo -
Janio de Freitas: Além do último sinal
JANIO DE FREITAS
Além do último sinal
A entrada em cena de forças extrapolíticas reproduz passo que pode levar situações tensas a fugir do controle

UM AVISO de perigo, na via política, foi ultrapassado.
A entrada em cena de forças extrapolíticas, motivadas pelo confronto entre Lula e os meios de comunicação com maior presença, reproduz o mais conhecido dos passos que levam situações tensas a enveredar por processos que fogem ao controle com facilidade. E, se isso ocorre, põem em risco a integridade institucional -o próprio regime.
Se os meios de comunicação têm extrapolado ou não, no tratamento aos casos do sigilo violado na Receita Federal e das irregularidades originadas no Gabinete Civil da Presidência, até agora não houve indício algum da finalidade golpista acusada por governistas.
O que pode ser apontado são propósitos eleitorais. Mas os meios de comunicação brasileiros nunca deixaram de ser parte ativa nos esforços de conduzir o eleitorado. Sua origem e sua tradição são de ligações políticas, como agentes de facções ou partidos. Só em meado do século passado dá-se a primeira e derrotada tentativa, no "Jornal do Brasil", de prática desconectada de segmentos políticos.
Na atual campanha, os meios de comunicação com maior presença são passíveis de acusações como desequilíbrio no ânimo em relação a este ou àquele candidato; de parcialidade no interesse em eventos de um ou de outro, e, no noticiário das irregularidades, de precipitações e erros que são os mesmos cometidos na cobertura de todos os escândalos.
À parte atingida cabe reagir na medida do possível, que, em geral, não é muito. E às vezes é quase nada, porque a própria reação está sujeita ao que é acusado no principal. Mas assim é a etapa em que a sociedade brasileira ainda está.
Daí a golpismo, na atualidade, a diferença é total. Idêntica à diferença entre prática primária da democracia e o golpismo com que o país conviveu por décadas, até o maior dos golpes.
No outro lado, nenhum fato sustenta a ameaça à democracia atribuída a palavras ou atos de Lula. As reações ao que considera insultuoso, ou injusto, ou inverdadeiro são à sua maneira: com destempero deplorável, nas palavras e na teatralidade da exaltação. Sem consideração alguma, até muito menos do que pelos adversários, pela própria condição de presidente da República. A faixa presidencial ainda não se distinguiu, para Lula, da camisa do Sindicato dos Metalúrgicos.
Nenhum espetáculo e nenhum ato presidencial pode ser apontado, com seriedade, como ameaça à democracia. Nem o mais acusado deles, a alegada ameaça à liberdade de imprensa. A proposta petista de criação do Conselho Nacional de Jornalismo, ou algo assim, vale mais uma discussão do que poderia ser, a serviço de todas as partes, do que qualquer das acusações trocadas.
Conselho de Jornalismo não é embaixada do inferno, não é chavismo, não é ditadura, necessariamente. São muitos os países "civilizados" e democráticos em que tal conselho existe.
Na França, por exemplo, foi criado há muito tempo, prestou muitos serviços e ninguém pensa em dissolvê-lo, assim como o da TV. A Inglaterra, os países nórdicos e outros têm as suas formas de conselho. Discuti-lo no Brasil seria difícil, mas não ameaçaria a democracia ou a liberdade de imprensa.
A esse conjunto de desproporções e deformações vêm somar-se três iniciativas. Sindicatos e jornalistas resolvem fazer uma manifestação pública contra os meios de comunicação. O que pode vir daí senão o acirramento de um lado e de outro? A dez dias das eleições, nem alguns trocados eleitorais essa manifestação localizada pode obter. Sua aparência é só a de um ato de indignação.
A pouco mais de uma semana das eleições, professores, advogados, escritores, e outros, fazem manifestação pública e lançam um manifesto "contra a marcha para o autoritarismo". Haverá mesmo tal marcha, pelo fato de que Lula, nos estertores do seu mandato, rebaixa a função presidencial à de marqueteiro e cabo eleitoral? Se não está aí, o que indicaria que a prevista eleição de Dilma Rousseff é a marcha para o autoritarismo? É óbvio que o papel assumido por Lula macula a disputa.
Mas o que mais suscita reação, parece claro, não é o papel em si, que a lei nem cuidou de restringir: é que Lula o assume do alto de uma popularidade devastadora, que cai sobre os adversários. Nem por isso, no entanto, até agora sinalizadora de ameaças à democracia.
Por fim, um convite. O Clube Militar convida para um "painel", às 15h de hoje em sua sede no Rio, com dois jornalistas de oposição a Lula e ao governo. Sobre nada menos do que "A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão". Tivemos longo aprendizado do interesse militar por ameaças à democracia e pelas restrições à liberdade de expressão. O título do "painel" não esclarece o sentido atual dado às expressões, mas tanto faz. Sua realização é sugestiva por si só.
As três iniciativas, à parte seus objetivos, são formas fermentadas das tensões decorrentes do processo eleitoral e das feições que tomou. Mas correm o risco de estimular projeções para depois do resultado eleitoral, e sobre ele. E, a depender do resultado, o risco de transpor o início do futuro governo. Como já aconteceu tantas vezes, nenhuma para resultar em algo bom.





sábado, 4 de setembro de 2010

"Jamais rotularemos os adversários como inimigos"

Da Folha de São Paulo
FERNANDO DE BARROS E SILVA

Morte e Vida Francenilda SÃO PAULO -
A ala "Maçaranduba" da coligação "O Brasil Pode Mais", aquela para quem o que faltava ao programa de José Serra era "porrada", não tem mais do que reclamar. Na noite de quinta-feira, na TV, o tucano foi ao ataque e apostou suas fichas no "tudo ou nada".
Talvez não restassem muito mais opções a Serra. Não só à luz da dificuldade em que se encontra sua campanha mas, também, em razão do significado, ao mesmo tempo pessoal e político, que o escândalo da Receita tem para a candidatura.
A um mês da eleição, precisando tirar seis pontos de Dilma Rousseff para provocar o segundo turno, Serra radicalizou e fez um programa de teor inteiramente negativo, em que ele próprio apareceu distribuindo críticas à campanha rival.
Antes dele, um apresentador veio arando o terreno, desfiando, em tom "soft-alarmista", um enredo que começava com o paralelismo um tanto forçado entre o caso Lurian e o caso Veronica ("a mesma baixaria contra a filha do Lula agora é usada contra a filha de Serra"). A seguir, passava pelos aloprados ("ninguém foi julgado nem punido"), pelo escândalo do caseiro ("não deu em nada", mas sem citar Palocci, o petista amigo) e pelo mensalão ("ninguém foi preso").
Feito o bombardeio, surge então Serra, como quem sobrevoa um cenário de ruína moral, para transmitir seu alerta: "Se continuar assim, todos nós seremos Francenildos".
Quando lançou sua candidatura, em abril, Serra tinha como lema "o Brasil é um só" e dizia em seu discurso inaugural: "Jamais rotularemos os adversários como inimigos da pátria ou do povo".
Transcorridos alguns meses, o candidato rasgou o roteiro original e agora busca a unidade deste país "que é um só" numa suposta "condição francenilda", a que todos estaríamos condenados sob um governo Dilma.
É um apelo desesperado, de alto risco para Serra, que ainda pode funcionar. Ou representar mais um passo rumo à cova rasa que cabe à oposição no latifúndio do lulismo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dossiê da Filha de Serra - A Carta na Manga

Poucas pessoas na política nacional tem tanta afinidade com a palavra "dossiê" como José Serra. Talvez só o velho ACM tivesse fama maior de colecionador de documentos contra adversários. Em 2002, Serra teria sido responsável pela operação da PF na empresa Lúnus ligada a Rosena Sarney. O vazamento para imprensa de fotos de dinheiro achado na empresa foram mortais para a pré-candidatura da então PFLista. Na oportunidade, José Sarney denunciou no Senado que Serra teria criado no Ministério da Saúde um equipe de arapongas para montar dossiês contra adversários.
Ainda no período pré-eleitoral de 2002, Serra teria usado de dossiês para tirar os PSDBista Paulo Renato e Tasso Jereissati da disputa pela indicação do partido. Em 2006, Serra apareceu na campanha paulista como vítima do dossiê dos aloprados PTisstas. Há quem acredite que os "aloprados" foram vítimas de uma armadilha  montada pelo próprio Serra. Teriam aceitado comprar um dossiê e foram flagrados neste ato. A tese é coerente, afinal, o flagrante em uma circunstância destas é no mínimo curioso, além de conveniente para o PSDB. Se o "flagrante preparado" é especulação, a facilidade que José Serra tem, desde 2002, de pautar a cobertura da imprensa é um fato. Em todos estes episódios a versão predominante na grande imprensa lhe é favorável. Basta lembrar que em 2006 o Jornal Nacional da Globo escondeu a queda do avião da Gol para dar mais tempo e visibilidade ao escândalo dos aloprados.
Agora Serra alardeia sua condição de vítima no caso do dossiê sobre sua filha. Curioso que ele tenha guardado sua indignação para seu pior momento nas pesquisas. Desde junho deste ano o tucano ensaia denunciar o suposto jogo sujo envolvendo sua filha - http://livrepraque.blogspot.com/2010/06/dossies-e-dossies.html . Assim como no caso dos aloprados em 2006, ele conta com a cumplicidade de parte da mídia para enfatizar sua versão.
A rigor, este caso é de uma fragilidade gritante. O que se tem de concreto é que alguém, munido de um documento falso, obteve informações na Receita Federal sobre a filha do candidato PSDBista. Ora, a conduta ilícita evidente foi do falsário e não da Receita. Mas o caso é tratado com mais um avanço na direção do autoritarismo almejado pelo PT. A Receita Federal pode ter sido negligente, mas ao que tudo indica, não agiu visnado prejudicar ninguém, tampouco de obter dividendos eleitorais. Por outro lado, é difícil crer que um vazamento ocorrido há mais de um ano seja obra da coordenação de campanha de Dilma. Existem muitas teses para o vazamento, dentre as quais a que atribuem a briga entre Serra e Aécio pela indicação tucana, como bem descreve o jornalista Luis Nassif -  
A tática de se vitimizar estava na manga de Serra. Há três meses ele ensaia denunciar o fato. Se comparármos com o comportamento tucano em 2006, houve uma antecipação reveladora. Serra patinou nas pesquisas e teve que ceder ao embate agressivo pregado por alguns aliados. Não lhe serviu a campanha propositiva de "pós-lulista", a tática do medo dos radicais PTistas e a tese de comparar biografias. A estratégia de se apresentar como vítima não é nova na política. Parece ser a única que restou para Serra. A julgar pelas últimas sondagens, também não tem funcionado...    

sábado, 28 de agosto de 2010

Ibope - Agosto (Bahia/Brasil)

Nacional:

Dilma: 51%
Serra: 27%
Marina: 7%

Estadual:

Wagner: 49%
Souto: 18%
Geddel: 12%
Bassuma: 1%

Senador:
César: 35%
Lídice: 32%
Pinheiro: 29%
José Ronaldo: 9%
Edvaldo Brito: 7%
Aleluia: 6% 
Edson Duarte: 2%

domingo, 1 de agosto de 2010

Pesquisas - Julho

Na eleição americana que levou Obama à Casa Branca as pesquisas eleitorais se destacaram pela imprecisão. Houve distorção para todo lado. A história recente das pesquisas no Brasil atesta que a metodologia dos institutos permite uma aferição com alto grau de confiabilidade. Só a título de exemplo, é possível verificar que as pesquisas de boca-de-urna dificilmente divergem muito do resultado das urnas. 
O que comprometeu a credibilidade das pesquisas no Brasil foi a suspeita de uso político. Muitos institutos, dentre eles o Ibope, erraram nos últimos anos quase sempre contra candidatos de esquerda. O Ibope é ligado a rede Globo e muitos donos de afiliadas desta são filiados ao DEM ou PMDB. Atualmente o Datafolha tem sido questionado por divergir dos demais institutos e por sua ligação com a Folha de São Paulo. O jornal é acusado de ter uma cobertura parcial da campanha. A suspeita é, no mínimo, natural. Especialistas, entretanto, afirmam que o índice de acerto no Brasil é muito bom. Muito melhor que o índice americano.
Nos EUA uma prática de cobertura jornalística pouco científica se revelou eficaz. Muitos veículos passaram a divulgar a média das principais pesquisas de opinião. Tanto em relação às prévias quanto à eleição presidencial, a média das pesquisas se aproximou muito do resultado das urnas. Aplicando a mesma lógica às pesquisas brasileiras temos a seguinte evolução nas intenções de voto:


O gráfico acima é praticamente ajustável à margem de erro de todos os institutos. Há maior discrepância é com o Datafolha, segundo o qual Dilma ainda não pontuou acima de Serra. 
O Vox Populi apresenta um panorama mais coerente com a média destacada. Segundo este instituto, Dilma passou Serra e vem aumentando a vantagem de forma mais lenta do que se aproximara do tucano.
De um modo geral, o Ibope vem confirmando o Vox Populi na trajetória dos principais candidatos. Este foi o instituto que divulgou a pesquisa mais recente, apresentando Dilma com 39%, Serra com 34% e Marina com 7%.      
Estas informações revelam o seguinte:
1. Marina está há muito estagnada. Com pouco tempo de TV e pouca estrutura vai ter dificuldade em criar embaraços aos outros principais candidatos.
2. Dilma passou Serra em meados de maio e segue à frente. O empate técnico só se sustenta apenas no Datafolha.
3. Se a tendência de afastamento de Dilma e Serra se mantiver, há grandes chances de a eleição ser definida no primeiro turno. Considerando a popularidade de Lula, as notícias sobre as dificuldades na campanha de Serra e o maior tempo de TV da petista, este não é um mal palpite.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Marcas das Nossas "Revoluções"

Cartaz dos revolucinários de 32 convocando os paulista à luta armada.

 Divisão dos estados em que cada candidato foi vencedor no segundo turno de 2006. 

As peculiaridades das próximas eleições mexem com algumas feridas da história do país. Muito se fala dos reflexos do último período de governo militar, tendo em vista que os dois principais candidatos estiveram em oposição ao golpe de 64. Porém, chama atenção também a divisão política regional do país.
A nítida divisão eleitoral de 2006 está se reproduzindo em 2010. Pesquisas de opinião apontam Serra com vantagem na metade Sul e Dilma melhor na metade Norte do país. A origem nordestina de Lula não explica tal divisão. É prematuro atribuir o fenômeno exclusivamente a abrangência geográfica dos programas sociais. A compreensão do momento político passa pela análise de questões do século passado.
Lula tem forte identificação com a controvertida figura de Getúlio Vargas, presidente empossado pela Revolução de 1930. Desde a base sindical ao apelo nacionalista apoiado na estatal do petróleo, o atual líder da nação guarda semelhanças com aquele. Não é sem razão que sobre o ex-metalúrgico também paira a aura de pai dos pobres.
Dilma teve sua carreira política radicada no Rio Grande do Sul, terra de Getúlio. A ex-ministra é de Minas Gerais, estado que apoiou a Revolução de 30. Dilma foi militante de um grupo guerrilheiro que se opôs ao golpe de 64, o que naturalmente força o país a uma reflexão sobre a participação dos militares na política nacional.
Já Serra é mais um político paulista do PSDB indicado à disputa presidencial. O partido governou o país entre 1995 e 2002 (com o paulista FHC) e foi a principal legenda de oposição ao governo Lula. Em 2010 o tucanato deixou clara a hegemonia da ala paulista em seu comando, assim como o fizera ao preterir Aécio em 2006 e Tasso Jereissati em 2002. Por isso e por estar governando São Paulo há 16 anos, reforçou a imagem de que busca a hegemonia de São Paulo na política do país. Imagem esta que remete à Revolução de 1932.
O dia 9 de julho, data do início da Revolução de 32, é a data cívica mais importante para os paulistas. É como o 2 de julho para os baianos 20 de setembro para gaúchos. Mas ao contrário de outras datas cívicas celebradas, a Revolução de 32 não é considerada pelo restante do país como uma luta de progressistas contra conservadores. É vista como uma luta reacionária e egoísta de São Paulo contra o Brasil.
O fato é que em julho de 1932 o país vivia sob um “Governo Provisório” nomeado por militares desde novembro de 1930. Getúlio Vargas chegou ao poder por um golpe eclodido após São Paulo tentar levar à presidência mais um paulista, rompendo com o pacto café-com-leite.
É difícil aplicar a lógica maniqueísta ao papel dos paulistas no início da década de 30. Até então, São Paulo e Minas Gerais, os dois estados mais ricos e populosos, revezavam-se no poder do país. Se não era justo com as demais federações, tinha sua lógica. Sob o efeito da crise de 29, os paulistas quebram o pacto. Indicado pelo presidente Washington Luís, o presidente/governador de São Paulo, Júlio Prestes, foi eleito em 1° de março de 1930. A rigor, em 32 o estado do presidente eleito lutou contra um regime de exceção.
Mas o raciocínio democrático eleitoral é relativo para o caso. É preciso imaginar o que representava a eleição no Brasil à época. As mulheres e os analfabetos não podiam votar, o que reduzia o número de eleitores a menos de 10% da população. Além disso, o voto era aberto e não havia Justiça Eleitoral. Ou seja, na prática a eleição era uma decisão oligárquica, geralmente tomada em conjunto com quem já ocupava o poder. Em um contexto tão precário, bastou a ruptura das oligarquias dominantes para que a eleição fosse contestada e taxada de ilegítima pelos apoiadores de Getúlio Vargas.
A Revolução de 30*, à semelhança do golpe de 1964, foi um golpe militar apoiado por lideranças civis. Vargas (que foi sargento) sagrou-se vitorioso fundamentalmente pelo apoio que tinha dentre os militares. Os reflexos da crise de 29 e a divisão das principais lideranças civis do país (mesmo no âmbito interno de Minas e São Paulo havia fissuras) abriram espaço para que líderes militares apoiassem alguém mais identificado com seus objetivos. Isto ficou claro na anistia concedida por Vargas aos militares envolvidos em revoltas na década de 20. Vargas também implementou propostas defendidas pelo tenentes, além de nomear vários deles como interventores nos estados.
A Revolução de 32 foi uma das poucas revoltas na nossa história em que houve engajamento popular. Entretanto, porque ela é tão mal vista pelos brasileiros não-paulistas? Porque a causa paulista não era o interesse do Brasil e porque o bom governo de Getúlio o absolveu, pelo menos até o Golpe de 37.
A Revolução de 32 foi movida por interesses que ensejaram a ruptura com a política café-com-leite. Interesses que de certa maneira permearam e permeiam a vontade da elite paulista. Desde o início do século passado, São Paulo é economicamente muito mais forte que o restante do país. Ainda hoje é grande a desproporção entre o que o estado arrecada para a federação e o que esta lhe devolve. Em 32 havia o interesse de não delegar a políticos outros o poder que as elites paulistas entendiam lhe pertencer. Se não obtivessem o poder de controlar o país, almejavam controlar o estado como nação autônoma.
A marca deste pensamento da política paulista ainda não deixou de existir. O governador paulista Adhemar de Barros, combatente por São Paulo em 32, foi um dos apoiadores civis do golpe de 1964. Aos seus olhos deve ter parecido fora de lugar o poder nas mãos do gaúcho João Goulart. De alguma forma o mesmo pensamento norteou as escolhas do PSDB nos últimos anos. Ao PSDB paulista é preferível perder a eleição presidencial a deixar o controle do partido nas mãos de outrem.
O Sul e Sudeste são para o restante do Brasil o que os EUA são para a América Latina. São forças econômicas demandando poder político. O 9 de julho continua sendo comemorado apenas em um pedaço do país porque simboliza a ruptura de interesses que permanecem divergentes. Esta é base da divergência da década de 30 e é a raiz da atual divisão.

*A Revolução 30 foi o berço do golpe de 1964. Quase todos os comandantes militares do golpe militar de 1964 eram ex-tenentes de 1930, tais como Ernesto Geisel, Castelo Branco, Médici, Juraci Magalhães e Juarez Távora.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A sorte está lançada...

Hoje começou oficialmente a campanha eleitoral. O balanço da pré-campanha é extremamente satisfatório para o governo. Lula lançou Dilma com quase dois anos de antecedência ao anunciá-la como mãe do PAC. Muitos disseram que seria prematuro, que ela se tornaria alvo de críticas muito cedo. O certo é que  agora qualquer pesquisa aponta Dilma com mais de 35%.
Por outro lado, Lula enquadrou o PT, acabando com a intransigência do partido em não abrir mão de candidatura própria na maioria dos estados e arrastou para si o apoio do PMDB, considerado o fiel da balança do tempo de propaganda eleitoral gratuita na TV.  Dilma larga com ares de favorita, estando, inclusive, pontuando na liderança segundo algumas pesquisas.
Se quase tudo são flores no palanque PTista, uma variável não está exatamente onde eles esperavam - a intenção de votos em Serra permanece alta nas pesquisas eleitorais. O gráfico abaixo traz uma médias das intenções de voto nas principais pesquisas eleitorais entre novembro e dezembro do ano passado e junho deste ano:

   
Verifica-se claramente a ascensão constante de Dilma conforme o desejo governista. Entretanto, Serra ter perdido apenas 3% ante o crescimento de 17% da ex-ministra é um feito respeitável.
É possível questionar esta ou aquela pesquisa, mas é também possível extrair conclusões óbvias do apanhado de dados. É fato; Dilma cresceu mais do que desejava a oposição e Serra caiu menos que gostaria o governo.
Em parte o atual equilíbrio de forças é explicado pela própria polarização da campanha. Se existe aproximadamente 60% de eleitores que não estão escolhendo Dilma, Serra é praticamente a única opção restante, uma vez que os outros candidatos são pouco conhecidos. Da mesma forma, tendo o tucano cerca de 25% de rejeição, a governista é o maior pólo de atração deste eleitorado.
Olhando para trás, as pesquisa apontam para Serra uma perspectiva melhor do que em julho de 2002. Àquela altura ele tinha cerca de 20% contra aproximadamente 38% de Lula. Em 2006, com uma eleição também bastante polarizada, Alkimin tinha apenas uns 30% contra 45% de Lula. Logo, estar tecnicamente empatado e próximo dos 40% não é um cenário tão ruim para o PSDBista.
No balanço final da pré-campanha os números das pesquisas não são o grande problema de Serra. O desafio dele são as circunstâncias desfavoráveis, tais como menor tempo de televisão, menos palanques estaduais, aprovação recorde do governo e a economia indo bem. Em resumo, se o placar está praticamente igual, o time de Dilma ainda continua favorito. E o jogo está apenas no começo... 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ibope/Junho - Favoritismo

O detalhamento da pesquisa Ibope aponta um favoritismo ainda maior que a vantagem de 5% de Dilma sobre Serra. Segundo o Ibope, o maior percentual de eleitores que votaria em um candidato apoiado por Lula ( 67%) está no Nordeste. Entre os eleitores com renda até 1 salário mínimo, 62% votariam no candidato de Lula.
Justamente no Nordeste, 32% dos eleitores ainda não sabem que Dilma Rousseff é a candidata do presidente Lula. É o índice mais alto entre todas as regiões. Entre os eleitores com renda de até 1 salário mínimo, 39% não sabem que Dilma é a candidata governista.
À esta altura da corrida presidencial as pesquisas não tem muita utilidade. As alianças regionais e coligações estão praticamente todas fechadas. Uma das poucas constatações trazidas pela sondagem é mais uma frustração PSDBista. A visibilidade obtida por Serra nos programas eleitorais de TV em junho não reverteram a tendência de crescimento de Dilma e queda de Serra vista nos últimos meses.
Cada vez mais parece que a Lula basta informar a todo eleitorado que Dilma é sua candidata, estando este já convencido do mérito do governo no bom momento do país. As pesquisas até agora não ratificaram nenhuma linha de argumentação da oposição. A campanha oficial está próxima de começar e o PSDB está ficando encurralado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lula não é Deus

Reproduzo abaixo trecho de uma entrevista de Roberto Jefferson  ao jornalista Noblat pelo twitter. O "delator do mensalão" tem uma tese interessante sobre transferência de voto: 
@BlogdoNoblat - Ao político experiente, não ao torcedor: o senhor acredita mesmo na vitória de Serra? Acha que ele derrotará Lula?
@BlogdoJefferson - Será Serra x Dilma.
@BlogdoNoblat - Mas o senhor mesmo disse que Dilma não tem votos. Que Lula é quem tem. Logo é Serra x Lula, é óbvio.
@BlogdoJefferson - Quem irá ao debate, ao campo é Dilma. Ela e a jogadora. O técnico é craque. A jogadora é perna de pau. Gol de Serra.
@BlogdoNoblat - Ao debate irá Dilma. Mas na TV e no rádio, durante 45 dias, estará Lula dizendo: "Vote em Dilma". Isso não pesará?
@BlogdoJefferson - O peso é relativo. Deus perdeu a votação de seu filho para Barrabás. E Lula não e Deus.

Pesquisa - IBOPE, Junho

Estimulada
Serra 37%, Dilma37%, Marina 9%

Em relação à pesquisa anterior, Dilma subiu cinco pontos percentuais, e Serra caiu três.
O empate persiste na simulação de um eventual segundo turno: 42% para o tucano, 42% para a PTista. Na pesquisa Ibope de abril, o placar era de 46% a 37%.

A pesquisa Ibope não traz nenhuma novidade. Confirma a tendência de subida de Dilma e queda de Serra registrada em outras pesquisas. Os dados secundários confirmam o favoritismo da PTista, indicando essa com maior votação espontânea e ainda sendo menos conhecida que o adversário.
O único dado relevante desta pesquisa é que ela foi a primeira elaborada após a aparição de Dilma e Serra  nos horários gratuitos reservados aos partidos. Este tipo de espaço é disponibilizado por Lei para que partidos divulguem suas ideias e, em tese, não se destinam à propaganda eleitoral. Mas o fato é que Dilma usou o espaço do PT e Serra o do DEM como prévia da propaganda eleitoral que irá ao ar no período eleitoral.
Serra terá a seu dispor ainda em junho os programas do PPS e PSDB. A campanha serrista aposta que esses programas o farão voltar à dianteira das pesquisas. A julgar pelo resultado do Ibope, as aparições televisivas não tiveram tanta influência sobre a curva das sondagens pré-eleitorais. Pior, se existir realmente nexo entre essas aparições e o resultado das pesquisas, pode-se concluir que o discurso de Dilma convenceu mais do que o de Serra. É cada vez mais difícil o caminho do PSDBista. 

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A implosão de uma candidatura

Começam a sair dados de novas pesquisas. Encomendadas por partidos, elas, por enquanto, referem-se ao cenário em alguns estados. O Ibope aponta que em Minas Gerais Dilma já tem 42% contra 34% de Serra. O Sensus aponta 35,9% a 34,9% a favor da petista (6,9% para Marina). Nas contas do tucano seria preciso uma grande vitória em Minas para derrotar Dilma.
No Rio de Janeiro o Ibope aponta 46% para Dilma e 21% para Serra. Desta forma, a tese da vitória de Serra no Sul-sudeste para se opor a força de Lula no Norte-nordeste se esvazia.
Dizem que sentar na cadeira de governante antes da eleição dá azar. Uma alusão uma foto tirada por FHC na cadeira de prefeito de São Paulo na véspera da eleição de 1985. Jânio Quadros venceu aquela eleição e a foto de FHC, tirada para ilustrar sua esperada vitória, estampou as páginas dos jornais no dia seguinte à sua derrota, entrando para o folclore político. Entretanto, "assumir" a presidência antecipadamente não é mau negócio para Dilma.
À medida que Dilma vai consolidando seu favoritismo, sua capacidade de angariar apoios vai aumentando. O PMDB pendia para Serra no Rio Grande do Sul e no Paraná e Santa Catarina. Mesmo na Bahia chegou a flertar com o DEM e o PSDB. Ocorre que se opor agora a candidata começa a soar como se opor à presidente, ou seja, ficar de fora da divisão do bolo de cargos e verbas do governo nos próximos 4 anos. Uma ameaça mortal para os tão fisiológicos PMDBistas que hoje já pendem fortemente para a PTista.
O problema na composição da chapa de Serra é emblemático. Ninguém quer deixar de se eleger para qualquer cargo legislativo para ser derrotado na inexpressiva candidatura a vice. Com isso a campanha serrista vai se mostrando mais fraca e perdendo apoio, num ciclo amargo para o ex-governador de São Paulo. Certamente a saída para o impasse tucano será a escolha de alguém sem pretensões políticas, como algum empresário, ou um político com poucas chances na disputa ao senado ou câmara federal e que não deseje retroceder à candidatura de deputado estadual. O DEM baiano tem alguns nomes assim. Assim seguirá Serra, pagando o preço de ter assumido o papel de se opor ao fenômeno de popularidade Lula da Silva.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Favoritismo além das pesquisas nacionais

O favoritismo de Dilma tem elementos claros exibidos nas pesquisas de opinião. A aprovação recorde de Lula, a liderança da ex-ministra nos últimos levantamentos, sua vantagem nas sondagens espontâneas, baixa rejeição e o fato que muitos ainda desconhecem que ela é a candidata do presidente pesam a seu favor. A PTista tem também a seu favor uma conjuntura de alianças estaduais que ainda não impactaram as sondagens nacionais.
Segundo as pesquisas atuais, candidatos governistas lideram na maioria dos estados, às vezes tendo outro governista em segundo lugar, como no Maranhão e Pará. Nos vinte e sete estados, há cerca de 40 governistas com chances de eleição contra aproximadamente 30 serristas.
Ainda pelas pesquisas atuais, o PSDB leva grande vantagem em São Paulo e no sul do país. Nestes levantamentos, Alkimin tem cerca de 51% contra 19% de Mercadante. Difícil crer que tamanha diferença seja mantida até a eleição. O bom tempo de TV e a eventual candidatura a vice de Suplicy podem melhorar o cenário paulista para Dilma. No Rio Grande do Sul, a Candidata do PSDB está em terceiro nas sondagens, atrás do PT e do PMDB que ainda pode vir a apoiar Dilma.
Em Minas, o candidato de Aécio tem apenas 17% contra 41% do dilmista Hélio Costa. É voz corrente que em Minas pode ser decidida a eleição. Não se deve apostar nisso. Apesar de o estado representar cerca de 10% do eleitorado, a conjuntura política é desfavorável à vitória na escala desejada por Serra. Com um disputa dura na eleição local, Aécio não poderá se dar ao luxo de bater de frente com o eleitor lulista. A eleição de Anastasia é crucial para o futuro político do ex-governador mineiro, mais até que a vitória dos tucanos no plano nacional. Aécio vai topar voto Dilmasia, Marinasia, Serrasia, Dilmécio...tudo menos sair como grande derrotado de 2010.
No Rio de Janeiro, Serra conta com meio palanque de Gabeira contra duas chapas pró-governo. A situação de dois palanques fortes para Dilma contra um para Serra não é exclusividade carioca e gaúcha. Deverá ocorrer no Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Bahia, dentre outros.
A verdade é que Lula tem três grandes trunfos para eleger sua candidata: Maranhão, Pernambuco e Bahia. Juntos estes estados têm aproximadamente 15,5% do eleitorado nacional. No Maranhão, Lago do PDT tem 46% contra 32% de Rosena Sarney, somando 78% para os dois dilmistas. Em Pernambuco o PSBista Eduardo Campos tem 53%contra 25 do Serrista Jarbas. Campos é um dos maiores favoritos em 2010. Jarbas vai para o sacrifício, sem muita estrutura ou perspectiva. Lula é quase um Deus no estado. Pernambuco cresceu nos últimos anos quase a ritmo chinês.
Na Bahia Dilma terá o apoio de Geddel do PMDB (com 10%) e do governador Wagner do PT (com 41%). Serra terá apenas os herdeiros do carlismo com o DEM de Paulo Souto (com 32%). Souto deve perder espaço com a ascensão de Geddel. Muitos prefeitos eleitos pelo DEM ou seus aliados se filiaram ao PMDB de olho nas verbas administradas pelo então ministro PMDBista. Vale dizer também que ACM Neto não passou do terceiro lugar na eleição da capital baiana. Assim, se Dilma obtiver na média 66% dos votos nestes três estados, terá uma Minas Gerais inteira de frente sobre Serra.

sábado, 22 de maio de 2010

Datafolha Maio


Dilma 37%, Serra 37%, Marina 12%
Segundo turno: Dilma 46%, Serra 45%

Pesquisa de anterior (abril): Dilma 30%, Serra 42%, Marina 12%

Discrepância: É difícil comentar dados de pesquisas brigando com seus números. Os maiores institutos de pesquisa apontam um mesmo padrão, com Dilma crescendo rapidamente desde o fim do ano passado e Serra caindo gradativamente. O próprio Datafolha indicava esta tendência, indicando que entre dezembro e fevereiro, no cenário sem Ciro, a diferença entre Serra e Dilma caíra de 14 para 7 pontos. Ocorre que o instituto que fizera com mais de 65 dias de intervalo aquelas duas pesquisas, resolveu divulgar duas novas em cerca de 20 dias entre o fim de março e o início de abril. Nesta pesquisas, Serra teria invertido a tendência e alcançado a diferença de 12% sobre Dilma. Nenhum outro instituto confirmou esta tendência. Agora, o Datafolha apresenta o empate entre o tucano e a PTista. O Datafolha credita à propaganda do PT a façanha de, em um mês, inverter a suposta tendência anterior e fazer Dilma atingir um patamar inédito. O Instituto sai extremamente desgastado ante o público mais atento, arranhando a imagem da própria Folha de São Paulo que apoiou a discrepância de sua pesquisa com ataques a aferições concorrentes.

Análise: O saldo das pesquisas de maio é de empate técnico entre os candidatos com firme tendência de subida de Dilma e queda de Serra. Marina pode comemorar um patamar respeitável em face do seu desconhecimento pelo eleitor e pouca estrutura de campanha. Na média, a verde ostenta cerca de 10%. As sondagens espontâneas são largamente favoráveis à candidata governista e isso começa a se traduzir no aumento da rejeição de Serra. Para este, pior que os números é a constatação de que seu discurso não está funcionando, afinal, pesquisa não faz previsão, faz diagnóstico.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

As novas pesquisas e o PSDB

As primeiras pesquisas divulgadas em maio (Vox e Sensus) são recheadas de más notícias para o PSDB. Além de mostrar que Dilma assumiu a liderança, existem uma série de dados ruins para os tucanos. Dilma continua crescendo, já superando 35%. Serra oscila pouco, mas confirma certa tendência de queda quando olhamos o fim do ano passado. Os votos espontâneos consolidam o favoritismo governista, já que Dilma e Lula pontuam com cerda de 30% contra 15% de Serra. A Rejeição de Serra supera a de Dilma (28,4% X 29,5% na Sensus e 15% X 20% na Vox Populi). E esses são apenas os dados mais aparentes.
A pesquisa da Vox indica que Serra é conhecido por 76% dos eleitores e Dilma por apenas 56%. (Marina por apenas 33%). 4% ainda acham que Serra é o candidato de Lula e 1% pensam que é Marina. 33% dizem que só votarão no candidato de Lula e 30% dizem que podem votar no indicado pelo presidente.
A Sensus aponta que 55,4% disseram que não votariam "de jeito nenhum" no candidato de FHC, enquanto 60,8% dizem que votam com certeza ou poderiam votar no candidato de Lula. A aprovação de Lula é de 83,7%. FHC tinha 29,5% de aprovação em maio de 2002, ano em que seu candidato (o mesmo Serra) teve 23,2% de votos no primeiro turno e quase 39% no segundo. Logo, é gritante a margem para crescimento de Dilma neste cenário.
O que fará o PSDB diante destes números? De imediato tentará desqualificá-los e se apoiar em outras pesquisas. Ocorre que os números podem ser diferentes, porém o Ibope tem confirmado a tendência de Dilma assumir a liderança da corrida presidencial. O Datafolha não poderá sozinho contrapor as demais pesquisas, além de também ratificar que há mais espaço para crescimento da PTista. Brigar com os números pode ser uma necessidade retórica, mas não muda o panorama.
Serra, muito cedo e antes mesmo do início da campanha oficial, está ficando num beco sem saída. Mais uma vez precisa de um novo fato político para permanecer viável aos olhos de seus aliados. Na última vez, conseguiu fôlego com seu lançamento turbinado por pesquisas questionadas e um Aécio vibrante. Ensaiou um fortalecimento de suas alianças que não vingaram na prática. Àécio como vice volta a despontar como tábua de salvação dos tucanos. A essa altura as próprias pesquisas põem em xeque essa possibilidade. Dilma cresceu em Minas Gerais possivelmente em face do ressentimento ao tratamento dado ao neto de Tancredo pelo PSDB. Assumir a candidatura a vice pode ser inútil ou mesmo nocivo para o próprio Aécio. O ninho tucano deve estar fervilhando de análises e questionamentos.