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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A mídia e a era Lula! - 2

"A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar." 
Sun Tzu
O próprio Lula costuma-se creditar ao preconceito de classe o tratamento hostil de seu governo recebeu de parte da mídia. Para alguns analistas, a razão do embate entre o governo Lula e a grande imprensa seria de natureza ideológica. O governo mais de esquerda ou "populista" teria encontrado resistência de uma mídia liberal "progressista". Nos últimos dias do mandato do presidente, a Folha de São Paulo acabou por revelar a verdadeira razão da insatisfação da grande mídia com o governo. Revelou também como Lula soube derrotar o editorial da grande mídia sem nunca ter recorrido a uma medida de força. A democratização da verba da publicidade federal foi a arma silenciosa que tanto distanciou Lula da grande imprensa.

Fernando Rodrigues, Folha de S. Paulo
Quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse, em janeiro de 2003, apenas 499 veículos de comunicação recebiam verbas de publicidade do governo federal. Agora, o número foi para 8.094.
Esses jornais, revistas, emissoras de rádio, de TV e "outros" estão espalhados por 2.733 cidades. Em 2003, eram só 182 municípios.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O futuro governo Dilma e as lições de Maquiavel.


“Nada é tão fraco e instável quanto a potência
 de quem não se apóia na própria força.”

Como se dará a governabilidade para Dilma? Com tradição em quedas de mandatários, o país conviveu na última campanha com termos como “golpismo”, “autoritarismo”, “risco à democracia e a liberdade”. É preciso considerar que a futura presidente enfrentará interesses que transcendem a disputa partidária. Neste cenário, poucos conselheiros seriam tão precisos quanto o polêmico Maquiavel.
Para o autor de O Príncipe, as tropas de um governante seriam de três tipos: próprias, auxiliares e mercenárias. As primeiras seriam leais, ligadas a facção do líder desde sua origem. As segundas surgem de acordos com grupos externos, sendo mais leais a estes. O terceiro grupo é recrutado pelo dinheiro e age em razão deste.
A base política de Dilma é precária já no que tange as suas próprias tropas. Ela não tem liderança histórica dentro de seu partido. Entretanto, se conseguir contar com a lealdade do PT em razão do prestígio de Lula, terá o apoio da maior bancada na Câmara (88 deputados), segunda maior do Senado (11 senadores) e da militância mais bem estruturada do país.  
A principal força auxiliar do governo, o PMDB (16 senadores e 79 deputados), possui um tamanho compatível ao do PT.  Ambos terão cinco governadores, bancada no congresso e tempo de TV parecidos. PT e PMDB também são os partidos com presença significativa em todas as regiões do país e na grande maioria dos municípios. Há ainda forças importantes como o PSB de Ciro e seus seis governadores e do PR e PP que juntos somam mais deputados federais (82) que o PMDB e 7 senadores (o que representaria a terceira maior bancada da casa).
Sobre o perigo do apoio de forças auxiliares Maquiavel dizia: “Se são vencidas, representam a derrota; se vencem, aprisionam quem as utiliza”.  Para o autor, é preferível perder com as próprias forças a vencer com este tipo de ajuda. O risco é que organizadas e leais a outros, estas forças podem usurpar do governante o poder. É possível verificar que o PMDB apossou-se de um espaço caro ao PT no governo que se encerra. Um exemplo disto foi o desgaste de precisar apoiar Sarney quando ele esteve bombardeado por escândalos. Por outro lado, a força adquirida pelo PMDB obrigou o PT a ceder espaço nos Estados na disputa de agora.
Em tempos de paz, as forças mercenárias são as que se aproximam do líder e lhe dão sustentação por interesses econômicos. Com a força econômica do executivo federal, qualquer mandatário terá este tipo de apoio. Ele está difundido dentro dos diversos partidos políticos e nos demais setores auxiliares a um governante, como sindicatos, movimentos sociais, igrejas, imprensa, empresários, dentre outros setores organizados.
Segundo Maquiavel, aquele de depende de mercenários é “despojado na guerra pelos inimigos, e na paz por eles próprios”. Quem apóia por dinheiro, tende a ser indisciplinado e covarde. Ou seja, costuma a se desmobilizar ou mudar de lado quando muda a perspectiva de poder.
O risco causado por forças mercenárias vem da sua inépcia e das forças auxiliares de sua eficácia. Afinal, os primeiros não ajudam o suficiente nas crises, e os segundos podem ter interesse em causá-las.  
O pensador italiano ensinava que muitas vezes é impossível prescindir dos três tipos de tropa para chegar o poder. Entretanto, o êxito de um governo depende do manejo e ponderação destas forças. Logo, a gestão de Dilma dependerá organização dos partidos auxiliares, especialmente o PMDB. Se este estiver disciplinado e leal a uma liderança alternativa, poderá tumultuar o governo. Caso se porte como um “ajuntamento” mercenário, seguirá a maré de popularidade da presidente. Em todo caso, dependerá sempre do apoio Lula. Sem este sequer terá forças próprias para contrapor adversários fora e dentro do governo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sinal Amarelo?

Jânio de Freitas, jornalista da Folha de São Paulo, certa vez definiu Itamar Franco, quando no exercício da presidência, como um imbecil. A Folha de São Paulo é acusada de manter um cobertura parcial da política nacional. Dentre os casos mais relevantes, a FSP publicou em matéria de capa do jornal uma ficha falsa de Dilma no DOPS que, segundo o próprio jornal, foi recebida por e-mail (ou seja, não foi checada sua autenticidade).
O jornal e o jornalista que tanto extrapolaram no tom da cobertura eleitoral, agora parecem temer os rumos radicais que o processo político pode tomar no país. A capacidade de análise externada no artigo abaixo atesta que a precária linha editorial adotada pelo jornal não se deve a limitações técnicas ou intelectuais de seus colaboradores. Desta vez, o incendiário parece correr para apagar o fogo que tanto atiçou:

Folha de S.Paulo -
Janio de Freitas: Além do último sinal
JANIO DE FREITAS
Além do último sinal
A entrada em cena de forças extrapolíticas reproduz passo que pode levar situações tensas a fugir do controle

UM AVISO de perigo, na via política, foi ultrapassado.
A entrada em cena de forças extrapolíticas, motivadas pelo confronto entre Lula e os meios de comunicação com maior presença, reproduz o mais conhecido dos passos que levam situações tensas a enveredar por processos que fogem ao controle com facilidade. E, se isso ocorre, põem em risco a integridade institucional -o próprio regime.
Se os meios de comunicação têm extrapolado ou não, no tratamento aos casos do sigilo violado na Receita Federal e das irregularidades originadas no Gabinete Civil da Presidência, até agora não houve indício algum da finalidade golpista acusada por governistas.
O que pode ser apontado são propósitos eleitorais. Mas os meios de comunicação brasileiros nunca deixaram de ser parte ativa nos esforços de conduzir o eleitorado. Sua origem e sua tradição são de ligações políticas, como agentes de facções ou partidos. Só em meado do século passado dá-se a primeira e derrotada tentativa, no "Jornal do Brasil", de prática desconectada de segmentos políticos.
Na atual campanha, os meios de comunicação com maior presença são passíveis de acusações como desequilíbrio no ânimo em relação a este ou àquele candidato; de parcialidade no interesse em eventos de um ou de outro, e, no noticiário das irregularidades, de precipitações e erros que são os mesmos cometidos na cobertura de todos os escândalos.
À parte atingida cabe reagir na medida do possível, que, em geral, não é muito. E às vezes é quase nada, porque a própria reação está sujeita ao que é acusado no principal. Mas assim é a etapa em que a sociedade brasileira ainda está.
Daí a golpismo, na atualidade, a diferença é total. Idêntica à diferença entre prática primária da democracia e o golpismo com que o país conviveu por décadas, até o maior dos golpes.
No outro lado, nenhum fato sustenta a ameaça à democracia atribuída a palavras ou atos de Lula. As reações ao que considera insultuoso, ou injusto, ou inverdadeiro são à sua maneira: com destempero deplorável, nas palavras e na teatralidade da exaltação. Sem consideração alguma, até muito menos do que pelos adversários, pela própria condição de presidente da República. A faixa presidencial ainda não se distinguiu, para Lula, da camisa do Sindicato dos Metalúrgicos.
Nenhum espetáculo e nenhum ato presidencial pode ser apontado, com seriedade, como ameaça à democracia. Nem o mais acusado deles, a alegada ameaça à liberdade de imprensa. A proposta petista de criação do Conselho Nacional de Jornalismo, ou algo assim, vale mais uma discussão do que poderia ser, a serviço de todas as partes, do que qualquer das acusações trocadas.
Conselho de Jornalismo não é embaixada do inferno, não é chavismo, não é ditadura, necessariamente. São muitos os países "civilizados" e democráticos em que tal conselho existe.
Na França, por exemplo, foi criado há muito tempo, prestou muitos serviços e ninguém pensa em dissolvê-lo, assim como o da TV. A Inglaterra, os países nórdicos e outros têm as suas formas de conselho. Discuti-lo no Brasil seria difícil, mas não ameaçaria a democracia ou a liberdade de imprensa.
A esse conjunto de desproporções e deformações vêm somar-se três iniciativas. Sindicatos e jornalistas resolvem fazer uma manifestação pública contra os meios de comunicação. O que pode vir daí senão o acirramento de um lado e de outro? A dez dias das eleições, nem alguns trocados eleitorais essa manifestação localizada pode obter. Sua aparência é só a de um ato de indignação.
A pouco mais de uma semana das eleições, professores, advogados, escritores, e outros, fazem manifestação pública e lançam um manifesto "contra a marcha para o autoritarismo". Haverá mesmo tal marcha, pelo fato de que Lula, nos estertores do seu mandato, rebaixa a função presidencial à de marqueteiro e cabo eleitoral? Se não está aí, o que indicaria que a prevista eleição de Dilma Rousseff é a marcha para o autoritarismo? É óbvio que o papel assumido por Lula macula a disputa.
Mas o que mais suscita reação, parece claro, não é o papel em si, que a lei nem cuidou de restringir: é que Lula o assume do alto de uma popularidade devastadora, que cai sobre os adversários. Nem por isso, no entanto, até agora sinalizadora de ameaças à democracia.
Por fim, um convite. O Clube Militar convida para um "painel", às 15h de hoje em sua sede no Rio, com dois jornalistas de oposição a Lula e ao governo. Sobre nada menos do que "A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão". Tivemos longo aprendizado do interesse militar por ameaças à democracia e pelas restrições à liberdade de expressão. O título do "painel" não esclarece o sentido atual dado às expressões, mas tanto faz. Sua realização é sugestiva por si só.
As três iniciativas, à parte seus objetivos, são formas fermentadas das tensões decorrentes do processo eleitoral e das feições que tomou. Mas correm o risco de estimular projeções para depois do resultado eleitoral, e sobre ele. E, a depender do resultado, o risco de transpor o início do futuro governo. Como já aconteceu tantas vezes, nenhuma para resultar em algo bom.





sábado, 4 de setembro de 2010

"Jamais rotularemos os adversários como inimigos"

Da Folha de São Paulo
FERNANDO DE BARROS E SILVA

Morte e Vida Francenilda SÃO PAULO -
A ala "Maçaranduba" da coligação "O Brasil Pode Mais", aquela para quem o que faltava ao programa de José Serra era "porrada", não tem mais do que reclamar. Na noite de quinta-feira, na TV, o tucano foi ao ataque e apostou suas fichas no "tudo ou nada".
Talvez não restassem muito mais opções a Serra. Não só à luz da dificuldade em que se encontra sua campanha mas, também, em razão do significado, ao mesmo tempo pessoal e político, que o escândalo da Receita tem para a candidatura.
A um mês da eleição, precisando tirar seis pontos de Dilma Rousseff para provocar o segundo turno, Serra radicalizou e fez um programa de teor inteiramente negativo, em que ele próprio apareceu distribuindo críticas à campanha rival.
Antes dele, um apresentador veio arando o terreno, desfiando, em tom "soft-alarmista", um enredo que começava com o paralelismo um tanto forçado entre o caso Lurian e o caso Veronica ("a mesma baixaria contra a filha do Lula agora é usada contra a filha de Serra"). A seguir, passava pelos aloprados ("ninguém foi julgado nem punido"), pelo escândalo do caseiro ("não deu em nada", mas sem citar Palocci, o petista amigo) e pelo mensalão ("ninguém foi preso").
Feito o bombardeio, surge então Serra, como quem sobrevoa um cenário de ruína moral, para transmitir seu alerta: "Se continuar assim, todos nós seremos Francenildos".
Quando lançou sua candidatura, em abril, Serra tinha como lema "o Brasil é um só" e dizia em seu discurso inaugural: "Jamais rotularemos os adversários como inimigos da pátria ou do povo".
Transcorridos alguns meses, o candidato rasgou o roteiro original e agora busca a unidade deste país "que é um só" numa suposta "condição francenilda", a que todos estaríamos condenados sob um governo Dilma.
É um apelo desesperado, de alto risco para Serra, que ainda pode funcionar. Ou representar mais um passo rumo à cova rasa que cabe à oposição no latifúndio do lulismo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Fim da História!

"O Fim da História" é uma teoria social que supõe (ou supôs) que a democracia burguesa é o coroamento da história da humanidade. A tese ganhou força após a queda do muro do Berlim e no contexto neoliberal que marcou os anos seguintes a este evento. Na atual eleição brasileira parece que Lula vem decretar o fim da história na política nacional. Mas é isso? Acabou?
Com o início da propaganda política na televisão e a ampliação da vantagem de Dilma sobre Serra, a vitória lulista parece certa. Considerando a eminnte derrota da oposição também nos Estados (certamente a oposição sairá das urnas em 2010 menor que saiu em 2006), a impressão que se tem é que está terminada a discussão política no Brasil.
A direita herdeira de 1964 está a caminho do sepultamento. A social-democracia neoliberal e a hegemonia paulista centrada no PSDB também caminha para ser descartada de vez. Ainda que o PSDB consiga se reposicionar será em outro espectro ideológico. Os movimentos sociais estão contemplados em boa medida, assim como os partidos de centro e de esquerda moderada. A esquerda e a direita radical tem liberdade para expor sua posição, mas com atuação limitada a sua representação no Congresso Nacional. Os trabalhadores experimentam uma melhoria gradual em sua condição e a rica burguesia usufrui de estabilidade política e social com lucros recordes. Então, acabou?
A democracia burguesa com seus vícios e virtudes é o que escolhemos? A paternidade de Lula como fiador da boa intenção governamental é suficiente para a próxima década ou mais? Acabou?
Mais do que a atuação de Lula, a inépcia da oposição e da mídia conservadora em compreender este país deixará dois legados após outubro.
O primeiro legado é deslocamento do eixo político nacional para a chamada esquerda, em consonância com a vontade popular externada pelo brasileiro desde a primeira metade do século passado. Com o uso de vários artifícios, o conservadorismo político conseguiu manter o eixo político do governo brasileiro artificialmente alinhado ao pensamento político americano por décadas. A vitória de Lula deixou de ser um hiato na governança conservadora também pela alienação dos que se propuseram a se opor ao presidente. 
Outro legado é a legitimação de tudo que há de pior no governo do presidente Lula. Quando a mídia conservadora adotou uma postura parcial, justificou aos olhos do brasileiro os erros de Lula. Se o governo se aliou ao fisiologismo PMDBista, ficou claro que sem ele talvez não teria resistido ao ímpeto de setores golpistas. Quando parte da imprensa escolhe quais políticos devem ser atacados e quais devem ser poupados, aumenta a sensação de que corrupção permanecerá existindo mesmo com a troca dos eleitos. 
O consórcio mídia conservadora e oposição dão muito pouco crédito ao intelecto do eleitor. Acham que a grande maioria é incapaz de ter a mínima noção da disputa política que ocorre no país. Que se move apenas por influência da propaganda ou contexto econômico. A prova de que isso não é verdade é que bastou Lula ensaiar denunciar esta aliança em 2006 para atropelar Alkimin no segundo turno. 
Mas em que pese os erros da oposição e da mídia conservadora, a discussão política está terminada? Ou é a benção ao modelo atual ou é o retorno ao atraso? Chegamos lá? Acabou?
Sociedades injustas e desiguais como a nossa devem cobrar dos governos ou protegê-lo dos que supostamente querem implantar um governo pior? Dizer que as duas coisas não são antagônicas é possível, mas não quando se fala em alternativa política! Não pode ser que reste como opção acreditar que Aécio é mais "agregador", que Ciro pode ser "mais eficiente", ou que o caminho é a revolução proletária.
O país carece de lideranças de oposição que representem uma alternativa autêntica. Falta o Lula do Lula. Alguém que denuncie os 300 picaretas e não seja um deles. Que denuncie que é um absurdo bancos, empresas de comunicação, educação e saúde lucrarem bilhões tratando milhões de clientes como lixo.
Se o país é essa maravilha, porque não se pode ir a esquina da rua às 11:00 da noite? Aliás, não se pode ir a esquina nem às 11:00 da manhã se o indivíduo estiver falando ao celular ou com um relógio no braço. E quem anda quilômetros à noite por conta do péssimo transporte público tem que se acostumar a ser assaltado "x" vezes no ano. 
Isso tudo é fruto de séculos de desigualdade e agora que encontramos o fio da meada da nossa democracia burguesa os defeitos serão corrigidos?  Não carecemos de discussão política? É esta a conclusão que chegamos? É O Fim da História? 

domingo, 1 de agosto de 2010

Pesquisas - Julho

Na eleição americana que levou Obama à Casa Branca as pesquisas eleitorais se destacaram pela imprecisão. Houve distorção para todo lado. A história recente das pesquisas no Brasil atesta que a metodologia dos institutos permite uma aferição com alto grau de confiabilidade. Só a título de exemplo, é possível verificar que as pesquisas de boca-de-urna dificilmente divergem muito do resultado das urnas. 
O que comprometeu a credibilidade das pesquisas no Brasil foi a suspeita de uso político. Muitos institutos, dentre eles o Ibope, erraram nos últimos anos quase sempre contra candidatos de esquerda. O Ibope é ligado a rede Globo e muitos donos de afiliadas desta são filiados ao DEM ou PMDB. Atualmente o Datafolha tem sido questionado por divergir dos demais institutos e por sua ligação com a Folha de São Paulo. O jornal é acusado de ter uma cobertura parcial da campanha. A suspeita é, no mínimo, natural. Especialistas, entretanto, afirmam que o índice de acerto no Brasil é muito bom. Muito melhor que o índice americano.
Nos EUA uma prática de cobertura jornalística pouco científica se revelou eficaz. Muitos veículos passaram a divulgar a média das principais pesquisas de opinião. Tanto em relação às prévias quanto à eleição presidencial, a média das pesquisas se aproximou muito do resultado das urnas. Aplicando a mesma lógica às pesquisas brasileiras temos a seguinte evolução nas intenções de voto:


O gráfico acima é praticamente ajustável à margem de erro de todos os institutos. Há maior discrepância é com o Datafolha, segundo o qual Dilma ainda não pontuou acima de Serra. 
O Vox Populi apresenta um panorama mais coerente com a média destacada. Segundo este instituto, Dilma passou Serra e vem aumentando a vantagem de forma mais lenta do que se aproximara do tucano.
De um modo geral, o Ibope vem confirmando o Vox Populi na trajetória dos principais candidatos. Este foi o instituto que divulgou a pesquisa mais recente, apresentando Dilma com 39%, Serra com 34% e Marina com 7%.      
Estas informações revelam o seguinte:
1. Marina está há muito estagnada. Com pouco tempo de TV e pouca estrutura vai ter dificuldade em criar embaraços aos outros principais candidatos.
2. Dilma passou Serra em meados de maio e segue à frente. O empate técnico só se sustenta apenas no Datafolha.
3. Se a tendência de afastamento de Dilma e Serra se mantiver, há grandes chances de a eleição ser definida no primeiro turno. Considerando a popularidade de Lula, as notícias sobre as dificuldades na campanha de Serra e o maior tempo de TV da petista, este não é um mal palpite.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Marcas das Nossas "Revoluções"

Cartaz dos revolucinários de 32 convocando os paulista à luta armada.

 Divisão dos estados em que cada candidato foi vencedor no segundo turno de 2006. 

As peculiaridades das próximas eleições mexem com algumas feridas da história do país. Muito se fala dos reflexos do último período de governo militar, tendo em vista que os dois principais candidatos estiveram em oposição ao golpe de 64. Porém, chama atenção também a divisão política regional do país.
A nítida divisão eleitoral de 2006 está se reproduzindo em 2010. Pesquisas de opinião apontam Serra com vantagem na metade Sul e Dilma melhor na metade Norte do país. A origem nordestina de Lula não explica tal divisão. É prematuro atribuir o fenômeno exclusivamente a abrangência geográfica dos programas sociais. A compreensão do momento político passa pela análise de questões do século passado.
Lula tem forte identificação com a controvertida figura de Getúlio Vargas, presidente empossado pela Revolução de 1930. Desde a base sindical ao apelo nacionalista apoiado na estatal do petróleo, o atual líder da nação guarda semelhanças com aquele. Não é sem razão que sobre o ex-metalúrgico também paira a aura de pai dos pobres.
Dilma teve sua carreira política radicada no Rio Grande do Sul, terra de Getúlio. A ex-ministra é de Minas Gerais, estado que apoiou a Revolução de 30. Dilma foi militante de um grupo guerrilheiro que se opôs ao golpe de 64, o que naturalmente força o país a uma reflexão sobre a participação dos militares na política nacional.
Já Serra é mais um político paulista do PSDB indicado à disputa presidencial. O partido governou o país entre 1995 e 2002 (com o paulista FHC) e foi a principal legenda de oposição ao governo Lula. Em 2010 o tucanato deixou clara a hegemonia da ala paulista em seu comando, assim como o fizera ao preterir Aécio em 2006 e Tasso Jereissati em 2002. Por isso e por estar governando São Paulo há 16 anos, reforçou a imagem de que busca a hegemonia de São Paulo na política do país. Imagem esta que remete à Revolução de 1932.
O dia 9 de julho, data do início da Revolução de 32, é a data cívica mais importante para os paulistas. É como o 2 de julho para os baianos 20 de setembro para gaúchos. Mas ao contrário de outras datas cívicas celebradas, a Revolução de 32 não é considerada pelo restante do país como uma luta de progressistas contra conservadores. É vista como uma luta reacionária e egoísta de São Paulo contra o Brasil.
O fato é que em julho de 1932 o país vivia sob um “Governo Provisório” nomeado por militares desde novembro de 1930. Getúlio Vargas chegou ao poder por um golpe eclodido após São Paulo tentar levar à presidência mais um paulista, rompendo com o pacto café-com-leite.
É difícil aplicar a lógica maniqueísta ao papel dos paulistas no início da década de 30. Até então, São Paulo e Minas Gerais, os dois estados mais ricos e populosos, revezavam-se no poder do país. Se não era justo com as demais federações, tinha sua lógica. Sob o efeito da crise de 29, os paulistas quebram o pacto. Indicado pelo presidente Washington Luís, o presidente/governador de São Paulo, Júlio Prestes, foi eleito em 1° de março de 1930. A rigor, em 32 o estado do presidente eleito lutou contra um regime de exceção.
Mas o raciocínio democrático eleitoral é relativo para o caso. É preciso imaginar o que representava a eleição no Brasil à época. As mulheres e os analfabetos não podiam votar, o que reduzia o número de eleitores a menos de 10% da população. Além disso, o voto era aberto e não havia Justiça Eleitoral. Ou seja, na prática a eleição era uma decisão oligárquica, geralmente tomada em conjunto com quem já ocupava o poder. Em um contexto tão precário, bastou a ruptura das oligarquias dominantes para que a eleição fosse contestada e taxada de ilegítima pelos apoiadores de Getúlio Vargas.
A Revolução de 30*, à semelhança do golpe de 1964, foi um golpe militar apoiado por lideranças civis. Vargas (que foi sargento) sagrou-se vitorioso fundamentalmente pelo apoio que tinha dentre os militares. Os reflexos da crise de 29 e a divisão das principais lideranças civis do país (mesmo no âmbito interno de Minas e São Paulo havia fissuras) abriram espaço para que líderes militares apoiassem alguém mais identificado com seus objetivos. Isto ficou claro na anistia concedida por Vargas aos militares envolvidos em revoltas na década de 20. Vargas também implementou propostas defendidas pelo tenentes, além de nomear vários deles como interventores nos estados.
A Revolução de 32 foi uma das poucas revoltas na nossa história em que houve engajamento popular. Entretanto, porque ela é tão mal vista pelos brasileiros não-paulistas? Porque a causa paulista não era o interesse do Brasil e porque o bom governo de Getúlio o absolveu, pelo menos até o Golpe de 37.
A Revolução de 32 foi movida por interesses que ensejaram a ruptura com a política café-com-leite. Interesses que de certa maneira permearam e permeiam a vontade da elite paulista. Desde o início do século passado, São Paulo é economicamente muito mais forte que o restante do país. Ainda hoje é grande a desproporção entre o que o estado arrecada para a federação e o que esta lhe devolve. Em 32 havia o interesse de não delegar a políticos outros o poder que as elites paulistas entendiam lhe pertencer. Se não obtivessem o poder de controlar o país, almejavam controlar o estado como nação autônoma.
A marca deste pensamento da política paulista ainda não deixou de existir. O governador paulista Adhemar de Barros, combatente por São Paulo em 32, foi um dos apoiadores civis do golpe de 1964. Aos seus olhos deve ter parecido fora de lugar o poder nas mãos do gaúcho João Goulart. De alguma forma o mesmo pensamento norteou as escolhas do PSDB nos últimos anos. Ao PSDB paulista é preferível perder a eleição presidencial a deixar o controle do partido nas mãos de outrem.
O Sul e Sudeste são para o restante do Brasil o que os EUA são para a América Latina. São forças econômicas demandando poder político. O 9 de julho continua sendo comemorado apenas em um pedaço do país porque simboliza a ruptura de interesses que permanecem divergentes. Esta é base da divergência da década de 30 e é a raiz da atual divisão.

*A Revolução 30 foi o berço do golpe de 1964. Quase todos os comandantes militares do golpe militar de 1964 eram ex-tenentes de 1930, tais como Ernesto Geisel, Castelo Branco, Médici, Juraci Magalhães e Juarez Távora.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A sorte está lançada...

Hoje começou oficialmente a campanha eleitoral. O balanço da pré-campanha é extremamente satisfatório para o governo. Lula lançou Dilma com quase dois anos de antecedência ao anunciá-la como mãe do PAC. Muitos disseram que seria prematuro, que ela se tornaria alvo de críticas muito cedo. O certo é que  agora qualquer pesquisa aponta Dilma com mais de 35%.
Por outro lado, Lula enquadrou o PT, acabando com a intransigência do partido em não abrir mão de candidatura própria na maioria dos estados e arrastou para si o apoio do PMDB, considerado o fiel da balança do tempo de propaganda eleitoral gratuita na TV.  Dilma larga com ares de favorita, estando, inclusive, pontuando na liderança segundo algumas pesquisas.
Se quase tudo são flores no palanque PTista, uma variável não está exatamente onde eles esperavam - a intenção de votos em Serra permanece alta nas pesquisas eleitorais. O gráfico abaixo traz uma médias das intenções de voto nas principais pesquisas eleitorais entre novembro e dezembro do ano passado e junho deste ano:

   
Verifica-se claramente a ascensão constante de Dilma conforme o desejo governista. Entretanto, Serra ter perdido apenas 3% ante o crescimento de 17% da ex-ministra é um feito respeitável.
É possível questionar esta ou aquela pesquisa, mas é também possível extrair conclusões óbvias do apanhado de dados. É fato; Dilma cresceu mais do que desejava a oposição e Serra caiu menos que gostaria o governo.
Em parte o atual equilíbrio de forças é explicado pela própria polarização da campanha. Se existe aproximadamente 60% de eleitores que não estão escolhendo Dilma, Serra é praticamente a única opção restante, uma vez que os outros candidatos são pouco conhecidos. Da mesma forma, tendo o tucano cerca de 25% de rejeição, a governista é o maior pólo de atração deste eleitorado.
Olhando para trás, as pesquisa apontam para Serra uma perspectiva melhor do que em julho de 2002. Àquela altura ele tinha cerca de 20% contra aproximadamente 38% de Lula. Em 2006, com uma eleição também bastante polarizada, Alkimin tinha apenas uns 30% contra 45% de Lula. Logo, estar tecnicamente empatado e próximo dos 40% não é um cenário tão ruim para o PSDBista.
No balanço final da pré-campanha os números das pesquisas não são o grande problema de Serra. O desafio dele são as circunstâncias desfavoráveis, tais como menor tempo de televisão, menos palanques estaduais, aprovação recorde do governo e a economia indo bem. Em resumo, se o placar está praticamente igual, o time de Dilma ainda continua favorito. E o jogo está apenas no começo... 

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lula não é Deus

Reproduzo abaixo trecho de uma entrevista de Roberto Jefferson  ao jornalista Noblat pelo twitter. O "delator do mensalão" tem uma tese interessante sobre transferência de voto: 
@BlogdoNoblat - Ao político experiente, não ao torcedor: o senhor acredita mesmo na vitória de Serra? Acha que ele derrotará Lula?
@BlogdoJefferson - Será Serra x Dilma.
@BlogdoNoblat - Mas o senhor mesmo disse que Dilma não tem votos. Que Lula é quem tem. Logo é Serra x Lula, é óbvio.
@BlogdoJefferson - Quem irá ao debate, ao campo é Dilma. Ela e a jogadora. O técnico é craque. A jogadora é perna de pau. Gol de Serra.
@BlogdoNoblat - Ao debate irá Dilma. Mas na TV e no rádio, durante 45 dias, estará Lula dizendo: "Vote em Dilma". Isso não pesará?
@BlogdoJefferson - O peso é relativo. Deus perdeu a votação de seu filho para Barrabás. E Lula não e Deus.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A implosão de uma candidatura

Começam a sair dados de novas pesquisas. Encomendadas por partidos, elas, por enquanto, referem-se ao cenário em alguns estados. O Ibope aponta que em Minas Gerais Dilma já tem 42% contra 34% de Serra. O Sensus aponta 35,9% a 34,9% a favor da petista (6,9% para Marina). Nas contas do tucano seria preciso uma grande vitória em Minas para derrotar Dilma.
No Rio de Janeiro o Ibope aponta 46% para Dilma e 21% para Serra. Desta forma, a tese da vitória de Serra no Sul-sudeste para se opor a força de Lula no Norte-nordeste se esvazia.
Dizem que sentar na cadeira de governante antes da eleição dá azar. Uma alusão uma foto tirada por FHC na cadeira de prefeito de São Paulo na véspera da eleição de 1985. Jânio Quadros venceu aquela eleição e a foto de FHC, tirada para ilustrar sua esperada vitória, estampou as páginas dos jornais no dia seguinte à sua derrota, entrando para o folclore político. Entretanto, "assumir" a presidência antecipadamente não é mau negócio para Dilma.
À medida que Dilma vai consolidando seu favoritismo, sua capacidade de angariar apoios vai aumentando. O PMDB pendia para Serra no Rio Grande do Sul e no Paraná e Santa Catarina. Mesmo na Bahia chegou a flertar com o DEM e o PSDB. Ocorre que se opor agora a candidata começa a soar como se opor à presidente, ou seja, ficar de fora da divisão do bolo de cargos e verbas do governo nos próximos 4 anos. Uma ameaça mortal para os tão fisiológicos PMDBistas que hoje já pendem fortemente para a PTista.
O problema na composição da chapa de Serra é emblemático. Ninguém quer deixar de se eleger para qualquer cargo legislativo para ser derrotado na inexpressiva candidatura a vice. Com isso a campanha serrista vai se mostrando mais fraca e perdendo apoio, num ciclo amargo para o ex-governador de São Paulo. Certamente a saída para o impasse tucano será a escolha de alguém sem pretensões políticas, como algum empresário, ou um político com poucas chances na disputa ao senado ou câmara federal e que não deseje retroceder à candidatura de deputado estadual. O DEM baiano tem alguns nomes assim. Assim seguirá Serra, pagando o preço de ter assumido o papel de se opor ao fenômeno de popularidade Lula da Silva.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Favoritismo além das pesquisas nacionais

O favoritismo de Dilma tem elementos claros exibidos nas pesquisas de opinião. A aprovação recorde de Lula, a liderança da ex-ministra nos últimos levantamentos, sua vantagem nas sondagens espontâneas, baixa rejeição e o fato que muitos ainda desconhecem que ela é a candidata do presidente pesam a seu favor. A PTista tem também a seu favor uma conjuntura de alianças estaduais que ainda não impactaram as sondagens nacionais.
Segundo as pesquisas atuais, candidatos governistas lideram na maioria dos estados, às vezes tendo outro governista em segundo lugar, como no Maranhão e Pará. Nos vinte e sete estados, há cerca de 40 governistas com chances de eleição contra aproximadamente 30 serristas.
Ainda pelas pesquisas atuais, o PSDB leva grande vantagem em São Paulo e no sul do país. Nestes levantamentos, Alkimin tem cerca de 51% contra 19% de Mercadante. Difícil crer que tamanha diferença seja mantida até a eleição. O bom tempo de TV e a eventual candidatura a vice de Suplicy podem melhorar o cenário paulista para Dilma. No Rio Grande do Sul, a Candidata do PSDB está em terceiro nas sondagens, atrás do PT e do PMDB que ainda pode vir a apoiar Dilma.
Em Minas, o candidato de Aécio tem apenas 17% contra 41% do dilmista Hélio Costa. É voz corrente que em Minas pode ser decidida a eleição. Não se deve apostar nisso. Apesar de o estado representar cerca de 10% do eleitorado, a conjuntura política é desfavorável à vitória na escala desejada por Serra. Com um disputa dura na eleição local, Aécio não poderá se dar ao luxo de bater de frente com o eleitor lulista. A eleição de Anastasia é crucial para o futuro político do ex-governador mineiro, mais até que a vitória dos tucanos no plano nacional. Aécio vai topar voto Dilmasia, Marinasia, Serrasia, Dilmécio...tudo menos sair como grande derrotado de 2010.
No Rio de Janeiro, Serra conta com meio palanque de Gabeira contra duas chapas pró-governo. A situação de dois palanques fortes para Dilma contra um para Serra não é exclusividade carioca e gaúcha. Deverá ocorrer no Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Bahia, dentre outros.
A verdade é que Lula tem três grandes trunfos para eleger sua candidata: Maranhão, Pernambuco e Bahia. Juntos estes estados têm aproximadamente 15,5% do eleitorado nacional. No Maranhão, Lago do PDT tem 46% contra 32% de Rosena Sarney, somando 78% para os dois dilmistas. Em Pernambuco o PSBista Eduardo Campos tem 53%contra 25 do Serrista Jarbas. Campos é um dos maiores favoritos em 2010. Jarbas vai para o sacrifício, sem muita estrutura ou perspectiva. Lula é quase um Deus no estado. Pernambuco cresceu nos últimos anos quase a ritmo chinês.
Na Bahia Dilma terá o apoio de Geddel do PMDB (com 10%) e do governador Wagner do PT (com 41%). Serra terá apenas os herdeiros do carlismo com o DEM de Paulo Souto (com 32%). Souto deve perder espaço com a ascensão de Geddel. Muitos prefeitos eleitos pelo DEM ou seus aliados se filiaram ao PMDB de olho nas verbas administradas pelo então ministro PMDBista. Vale dizer também que ACM Neto não passou do terceiro lugar na eleição da capital baiana. Assim, se Dilma obtiver na média 66% dos votos nestes três estados, terá uma Minas Gerais inteira de frente sobre Serra.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

As novas pesquisas e o PSDB

As primeiras pesquisas divulgadas em maio (Vox e Sensus) são recheadas de más notícias para o PSDB. Além de mostrar que Dilma assumiu a liderança, existem uma série de dados ruins para os tucanos. Dilma continua crescendo, já superando 35%. Serra oscila pouco, mas confirma certa tendência de queda quando olhamos o fim do ano passado. Os votos espontâneos consolidam o favoritismo governista, já que Dilma e Lula pontuam com cerda de 30% contra 15% de Serra. A Rejeição de Serra supera a de Dilma (28,4% X 29,5% na Sensus e 15% X 20% na Vox Populi). E esses são apenas os dados mais aparentes.
A pesquisa da Vox indica que Serra é conhecido por 76% dos eleitores e Dilma por apenas 56%. (Marina por apenas 33%). 4% ainda acham que Serra é o candidato de Lula e 1% pensam que é Marina. 33% dizem que só votarão no candidato de Lula e 30% dizem que podem votar no indicado pelo presidente.
A Sensus aponta que 55,4% disseram que não votariam "de jeito nenhum" no candidato de FHC, enquanto 60,8% dizem que votam com certeza ou poderiam votar no candidato de Lula. A aprovação de Lula é de 83,7%. FHC tinha 29,5% de aprovação em maio de 2002, ano em que seu candidato (o mesmo Serra) teve 23,2% de votos no primeiro turno e quase 39% no segundo. Logo, é gritante a margem para crescimento de Dilma neste cenário.
O que fará o PSDB diante destes números? De imediato tentará desqualificá-los e se apoiar em outras pesquisas. Ocorre que os números podem ser diferentes, porém o Ibope tem confirmado a tendência de Dilma assumir a liderança da corrida presidencial. O Datafolha não poderá sozinho contrapor as demais pesquisas, além de também ratificar que há mais espaço para crescimento da PTista. Brigar com os números pode ser uma necessidade retórica, mas não muda o panorama.
Serra, muito cedo e antes mesmo do início da campanha oficial, está ficando num beco sem saída. Mais uma vez precisa de um novo fato político para permanecer viável aos olhos de seus aliados. Na última vez, conseguiu fôlego com seu lançamento turbinado por pesquisas questionadas e um Aécio vibrante. Ensaiou um fortalecimento de suas alianças que não vingaram na prática. Àécio como vice volta a despontar como tábua de salvação dos tucanos. A essa altura as próprias pesquisas põem em xeque essa possibilidade. Dilma cresceu em Minas Gerais possivelmente em face do ressentimento ao tratamento dado ao neto de Tancredo pelo PSDB. Assumir a candidatura a vice pode ser inútil ou mesmo nocivo para o próprio Aécio. O ninho tucano deve estar fervilhando de análises e questionamentos.

Um Nome na História


Dizem que um homem pode ser medido pelo tamanho de seus sonhos. O retirante Lula sonhou em ter um emprego decente, um sindicato forte, um partido grande e, por fim, sonhou em ser presidente. Alcançou seus sonhos e continuou a olhar pro alto. Acabar com a fome no Brasil e no mundo, promover o equilíbrio e paz mundial. Dizem também que o importante na vida não é onde se quer chegar, mas o caminho que se trilha. Lula continua trilhando o caminho de seus nobres anseios. A despeito dos dizeres piegas e lugares comuns, o fato é que Lula neste momento enche seu povo de orgulho. Este brasileiro escreve seu nome na história do país e do mundo.
O Acordo alcançado no Irã tem a marca do otimismo e persistência de Lula. Às potências ainda cabe ratificar o entendimento, mas Brasil já rompeu o ciclo de omissão que existiu na guerra do Iraque. O presidente teima em crer no improvável e conquistar o impensado. Exemplo para sua nação. Prova do que preconizou Darci Ribeiro ao dizer que a "raça mestiça" deste país tem muito a ensinar ao planeta.

sábado, 15 de maio de 2010

Política Econômica e Matemática Política

A partir dos anos FHC, sob o "consenso" neoliberal, a economia ganhou papel ainda mais destacado na política. O debate entre a oposição e o governo passou a ser fundamentalmente de calibragem das medidas econômicas. Dos botecos ao Congresso Nacional, discute-se dólar, juros, valor do salário, gastos do governo, etc... A política virou meio. A governabilidade se tornou ferramenta de implementação das políticas públicas. O resultado na economia justifica, em tese, alianças ortodoxas. A ideia de que a economia condiciona a política colocará sempre à oposição uma única aposta, a de que as coisas não funcionem.
A bússola econômica na matemática política atingiu negativamente o PSDB no papel de adversário do governo. Num primeiro momento apostou-se que as divergências do PT e o mercado seriam insanáveis. Com a continuidade dos eixos de política econômica por Lula, os tucanos se viram compelidos a alternar entre críticas às doses e elogios às fórmulas dos remédios aplicados.
Com o crescimento econômico e da popularidade de Lula, sobretudo no segundo mandato, a oposição resolveu esperar. Uma hora uma crise viria e então chegaria o momento de pregar a alternância.
Confusos e intimidados com a popularidade do presidente, em 2008, mesmos os candidatos de partidos de oposição evitaram trombar com o lulismo, chegando a querer pegar carona em sua popularidade. A "marolinha" desfez os planos de propor mudança. O site do atual presidente do PSDB, Sérgio Guerra, em que ele aparece vinculado às obras do PAC é um exemplo da dificuldade do discurso na oposição.
Recentemente Serra declarou, sem ironia, que Lula está acima do bem e do mal, merecendo a popularidade que tem. Em seus cálculos, não é vantajoso criticar o popular governante. A lógica é de que se a economia vai bem o presidente torna-se bem avaliado e, portanto, não deve ser confrontado.
Qual alternativa restaria à oposição? Brigar com os números? Profetizar crises? Não. A responsável pelo não fechamento das contas da oposição é a própria lógica matemática. As cabeças tecnocratas se afastaram da atividade política mais genuína. Prioriza-se a eleição de maior número de prefeitos ou deputados em detrimento da construção de um projeto de nação. Os candidatos preferem repetir o pensamento majoritário indicado em pesquisas do que entender o país e propor caminhos. Quanto antes se perceber que a política é atividade humana, mais cedo emergirão líderes autênticos. Assim, será possível legitimar-se ante a população, inclusive, quando os números da economia não sejam favoráveis.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Crônica do Personagem Ciro 3 - Acabou?

"Presidência é destino":Na eleição de 2002 Ciro ficou em quarto lugar. Atrás de Lula, Serra e Garotinho. Durante a campanha Ciro chegou a ficar em segundo lugar, sendo abatido pelo seu temperamento e pelas críticas de Serra. Ainda ssim, Ciro teve 10.170.000 votos, 2,5 milhões acima de sua votação em 1998.
No ano seguinte o cearense foi do PPS ao PSB por não aceitar ficar na oposição. Foi nomeado para o importante Ministério da Integração Nacional. No primeiro mandato de Lula, Ciro foi de uma lealdade ímpar. Jamais criticara publicamente o presidente, saindo sempre em sua defesa. Durante o episódio do mensalão Ciro compôs o núcleo de articulação mais próximo de Lula. Foi mais fiel e importante na defesa do presidente do que boa parte do próprio PT. Chegou a ser cogitado como candidato a vice-presidente na re-eleição do PTista.
Presidência é destino, já dizia Tancredo Neves. E o destino foi cruel com as pretensões de Ciro. Em 2006 a eleição estava submetida à cláusula de barreira. Os partidos que não tivessem uma votação mínima nacional estariam fadados a desaparecer ou a fundir-se com outro. Para manter vivo o PSB, Ciro candidatou-se a deputado federal, sagrando-se o deputado de maior percentual de votos na história do país.
Para sua ambição presidencial seria muito melhor ser governador, um cargo de maior visibilidade e com um orçamento para administrar. É certo que mesmo para as dimensões do cargo de deputado Ciro teve uma atuação apagada. A eleição de Eduardo Campos ao governo de Pernambuco pelo PSB tirou de Ciro a condição de maior cacique do partido. Além disto, a adesão do PMDB ao segundo governo lulista reduziu o espaço dos PSBistas.
Inventando a roda: Ciro alega que não aceitou ser ministro no segundo governo Lula devido às alianças fisiológicas deste com o PMDB e outros, mas manteve-se governista. Assim o cearense buscou três ineditismos. Primeiro quis manter-se viável sem projetar-se na mídia e criticando alianças ao invés de promovê-las para si. Depois apostou em lealdade como moeda na política. Esperou que sua fidelidade ao partido e ao presidente seria recompensada com um lugar no pleito. Erro estratégico imaginar que o presidente indicaria alguém fora do PT.
Por fim, a falha mais grave de Ciro foi apostar em ser um plano B de Lula. Nunca vi isso em política. Um governante bem avaliado jamais lança dois candidatos. Dividiria forças, além de que todo plano B presume/expõe a fragilidade do plano A. Delegar a terceiros o poder de decidir seu destino nunca é um bom caminho.
Conciliação de interesses: A máxima política de que é preferível ter um perfil conciliador é relativa. Alkimin sempre dividiu o partido para ser candidato. Pode-se dizer que ele perdeu a eleição em 2006 para presidente e para prefeito em 2008 em razão disto. Também em razão disto ele garantiu seu espaço e será candidato ao governo este ano. Serra agora prevaleceu sobre o conciliador Aécio.
A verdade é que nem todos interesses são conciliáveis. Ciro demorou para perceber que objetivos iguais são como dois corpos tentando ocupar um lugar no espaço. No PSDB seu interesse era o mesmo do núcleo paulista e por isso teve de sair do partido. Em 2010 seu interesse é igual ao do PT. Devia ter esticado a corda ou mesmo arrebentado quando Dilma tinha 1% nas pesquisas. Estava clara a opção do presidente. Não havia mais conciliação possível.
O erro de Ciro foi ele mesmo ter plano B ruim, ou não ter um plano B. A alternativa dele era ser uma candidato ainda que inviável. Contar com a sorte para ir ao segundo turno ou ganhar vizibilidade para 2014. Má idéia, mesmo porque com o fantasma da volta de Lula, a hora deveria ser agora.
Ciro se enxergou muito grande. Teve a percepção de que esteve muito próximo da cadeira presidencial em 2002. Avalia que está lhe fugiu por erros táticos e tropeços de campanha. Achou que moderando sua lingua estaria destinado ao sucesso. Só que ninhuém é levado pela inércia aos pleitos seguintes, como ficou claro para Serra em 2006. Podia ter aceitado a saída planejada por Lula que arquitetara uma super coligação para ele em São Paulo. Optou por seus próprios planos que, de tão ruins, lhe deixaram sem batalhas.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Crônica do personagem Ciro 1

Ciro vinha tendo um discurso forte, criticando a postura ética do PT e PSDB em suas alianças. Registrei que era fácil tecer esse tipo de crítica quando não se têm aliados. O fim da quase candidatura do cearense foi melancólico. A entrevista ao IG foi desastrosa, quase infantil. Inadmissível a um político experiente que almeja ser presidente. Ele já havia criticado também o PMDB e seu próprio PSB. Agora criticou Lula e resvalou em Dilma. A essa altura suas críticas o fazem parecer destemperado, ambicioso e despreparado.
Curioso com o desfecho que Ciro deu à sua pretensão, resolvi escrever sobre sua trajetória em dois ou três post´s. Começo aqui a tentativa de entender e explicar o resultado obtido pelo ex-presidenciável.

Da ARENA ao Tucanato: Ciro ingressou na política em 19982, ano que foi eleito pelo PDS. O PDS sucedeu o ARENA, partido de apoio ao regime militar. Como deputado migrou para o PMDB e posteriormente para o PSDB, onde foi eleito prefeito de Fortaleza em 1988.
Em 1989 apoiou Mário Covas (PSDB) e, seguindo este, Lula no segundo turno contra Collor. Em 1991 sucedeu Tasso Jereissati (eleito pelo PMDB, saiu já no PSDB) no governo do Ceará. Ciro foi o primeiro governador eleito pelo partido tucano no país. No fim de 1994 deixou o governo para ser Ministro da Fazenda (ainda não havia reeleição).
A indicação de Ciro para o ministério revela o prestígio que ele tinha no partido. Aquele era o ministério do Plano Real. Após a saída de FHC a pasta da Fazenda foi assumida por Rubens Ricupero. Este último deixou o cargo após o escândalo da famosa entrevista dada a Carlos Monforte da Globo. Sem saber que estava no ar nos canais de parabólica, Ricupero admitiu falhas no plano. Disse ainda a célebre frase: "Eu não tenho escrúpulos, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde".

Dois anos mais tarde chegaria ao fim o casamento com o partido de FHC e Serra, justamente devido às ambições presidenciais de Ciro.

Ciro - O Pequeno



Na noite da última quinta-feira (22/04) Ciro chutou o balde. Isolado dentro e fora do partido, deu uma entrevista para o portal IG no melhor de seu estilo. Apesar de ressalvar que seguirá o partido apoiando Dilma, saiu disparando coisas como:

"Lula está navegando na maionese. ...acha que vai batizar Dilma presidente."

"Minha sensação agora é que o Serra vai ganhar. ...é mais preparado, mais legítimo, mais capaz. ...inclusive de enfrentar a crise que conheceremos em um ano ou dois."

"Não me peça para ir à televisão declarar meu voto (a Dilma)"

"(os aloprados do PT) Veremos algo assim de novo!"

Concordava que a candidatura de Ciro seria importante em 2010. Agora que ele sai de cena de maneira tão mesquinha, só me resta concordar com a declaração do líder do governo Romero Jucá:

"As declarações de Ciro são a prova da razão pela qual o PSB não o indicou a candidato a presidente."

terça-feira, 20 de abril de 2010

Política Externa - Itamaraty por Sun Tzu


"Todos podem ver as táticas de minhas conquistas, mas ninguém consegue discernir a estratégia que gerou as vitórias" (A Arte da Guerra - Sun Tzu)

"O Brasil tornou-se importante na comédias das nações, quase sem ninguém perceber" (Financial Times -abril de 2010)


O Brasil inegavelmente se tornou um ator mais relevante no cenário internacional. Muitos creditam isto ao carisma do presidente Lula, à força de nossa economia ou tradição de nossa diplomacia. Os críticos do governo, diriam que o país ganhou relevância apesar das decisões do Itamaraty, ao qual atribuem viés ideológico de esquerda na atualidade.

Nos últimos anos o país se viu envolvido em uma série de delicados episódios e em temas de grandeza absoluta.

O país atuou em conflitos como as greves na Venezuela (o governo brasileiro abasteceu o vizinho de petróleo enfraquecendo a posição dos que exigiam a renúncia de Chavez) a crise em Honduras, a tentativa de divisão da Bolívia e a invasão de tropas colombianas ao território equatoriano. Enfrentou duras disputas comerciais na questão do gás da Bolívia, da energia de Itaipu comprada do Paraguai e das tarifas de importação da Argentina. Notadamente nas disputas com vizinhos o país adotou retórica moderada e negociação "solidária", recebendo críticas internas de fraqueza nestas situações.

O Brasil também procurou ser ouvido em questões de interesses globais. O combate à pobreza e ao aquecimento global, a promoção da paz no oriente médio e a exaustão do uso da diplomacia com países como o Irã, Cuba e Síria foram bandeiras de nossa diplomacia.

As táticas verde-amarelas na conquista de maior voz são visíveis como pregava Sun Tzu. O país utilizou o prestígio de Lula e a curiosidade internacional sobre o ex-metalúrgico. Adotou discursos supranacionais e inquestionáveis como combate à pobreza e a paz. Posicionou-se como porta-voz não só de nações sulamericanas, mas como de todo mundo em desenvolvimento. Aliou às viagens de comissões diplomáticas comissões empresariais que ajudaram na diversificação dos parceiros comerciais.

Em análises simplificadas, o objetivo brasileiro não está oculto e é quase um fetiche: assumir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Vejo ambições mais complexas e sutilezas no discurso do ministro das relações exteriores, Celso Amorim. Em síntese, enxergo detalhes táticos, mas fico animado ao não discernir a estratégia.

A diplomacia brasileira se move para direita e esquerda como na ginga de um capoeirista. Critica as base americanas na Colômbia, mas fecha um acordo militar com os EUA. Amplia cooperação com o Irã ao tempo em que o faz com a França. Dialogou com Chavez e Bush com igual desenvoltura. A política externa chegou a ser definida como do "arco-íris" pelo Financial Times. Na base desta suposta ambiguidade está, paradoxalmente, a coerência.

A autoridade moral foi o maior cacife do Itamaraty. Para pleitear espaço na ONU o país disponibilizou tropas à entidade no Haiti. Ao buscar anistia de dívidas a países africanos abdicou de crédito que tinha com alguns deles. Recuou em algumas posições para tentar fechar a rodada Doha. Não só abriu mão de ajuda financeira como se dispôs a contribuir com um fundo de ajuda a paísses em desenvolvimento na tentativa de salvar o encontro ecológico de Copenhagen. Na questão de Honduras, ao trombar com a administração Obama, o Brasil estava alinhado à posição da ONU e OEA. Até mesmo na questão nuclear o país tem um discurso coerente alertando para os erros cometidos no Iraque, defendendo que o desarmamento deve alcançar efetivamente grandes potências e, por fim, fazendo sempre a ressalva que a palavra final da ONU será respeitada pelo Brasil.

É a palavra final da ONU o grande castelo que o Brasil pretende assentar em outros alicerces. Em recente sabatina no Senado, o ministro Celso Amorim, em meio a resposta sobre supostos erros de sua atuação destacou duas alianças brasileiras. Fora do contexto, o diplomata deixou escapar que os grupos denominados BASIC (Brasil, África do Sul e Índia e China) e BRIC (este sem África do Sul e com a Rússia) são os grandes saltos estratégicos do país.

O país não conseguirá um papel à altura dos membros permanentes do Conselho de Segurança como gesto de boa vontade dos membros existentes. O mero assento permanente como concessão dos países desenvolvidos traria apenas uma igualdade formal. Sebe também que pouco importa fazer parte de um Conselho se os EUA o ignorar sempre que desejar como fez na guerra do Iraque.

O Brasil trabalha de forma articulada para que a nova ordem econômica se converta em nova ordem política. Os BRIC´s terão cada vez mais peso, mas não adianta medir forças com as potências estabelecidas. Por isso a simpatia da França é importante, assim como é relevante reformar a ONU por dentro. Discurso firme com os EUA é necessário, mas radicalização bolivariana é contraproducente.

O país avança em seus objetivos com acertos e erros táticos. Entretanto, segundo Sun Tzu, suas vitórias são geradas porque sua estratégia não é visível, como atesta a declaração do Financial Times.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Oposição Verde Amarela

Já tratei da polarização eleitoral entre PT e PSDB sob a ótica de azuis contra vermelhos citada por Serra. Amplio a metáfora para falar da verde Marina e do Ciro, aqui tachado de amarelo por conveniência da mensagem que apresento.
A última pesquisa Sensus me chamou atenção para o crescimento de Marina. Embora ela não tenha ainda empolgado, parece viável que a candidata supere a marca de um dígito no decorrer da campanha. Já Ciro, isolado até em seu partido, tem caído sistematicamente. Há notícias dando conta de que ele deve desistir da candidatura já na próxima semana. Será uma pena pois as candidaturas do PV e PSB, juntas ou separadas, poderiam representar uma oposição verde-amarela.
Verde-amarela é uma composição que remete ao patriotismo. Marina tem uma biografia quase impecável. Ciro tem externado com coragem fragilidades da aliança governista que o PSDB não tem autoridade moral para criticar. Ambos os candidatos desempenharão (ou desempenhariam) um papel benéfico à política nacional.
Ciro e Marina são complementares. Marina tem optado por um discurso construtivo, apontando méritos dos governos ptista e tucano. Ciro é franco-atirador, crítico no limite do agressivo. A verde dá ênfase à preservação e o amarelo invoca o crescimento. A candidata tem a simpatia de muitos, mas lhe falta a vibração do cearense. Ela abriu mão de uma aliança mais à esquerda com o Psol em prol da aliança de Gabeira com o PSDB e o DEM. Ele pode até deixar de ser candidato para seu irmão ter o apoio do PT e é inimigo pessoal de Serra.
Marina tirou alguns trunfos de Dilma. É mais uma mulher no páreo, "roubou" o apoio de algumas legendas da base governista e, ainda que timidamente, expõe discordâncias do projeto Lula. Já a candidatura de Ciro desarrumaria o ninho tucano. Aécio tem afinidades explícitas com o PSBista, além de o tucano Tasso já tê-lo apoiado em detrimento do então candidato Alkimin.
Se a política brasileira não fosse tão engessada pelas alianças estaduais, uma chapa verde-amarela seria uma opção muito interessante ao eleitorado. Juntos, Ciro e Marina já teriam cerca de 20% nas pesquisas e um tempo razoável na TV. Já pensou como seria a disputa?

domingo, 11 de abril de 2010

José Serra - Azuis contra Vermelhos

Serra fez um discurso competente em seu lançamento como candidato. Aos ouvidos mais críticos, a virtude de seu discurso é também seu defeito. Foi uma ótima peça de publicidade, mas um pobre instrumento da verdadeira política.
Serra procurou calibrar seu discurso a todos os ouvintes. Quis parecer um estadista. Enfatizou a união, um contraponto à fama de desagregador que lhe é imputada. Fugiu de fazer repreensões mais duras ao governo, não só em razão da popularidade do presidente. Serra evitou críticas que o fizesse ser visto como porta voz da direita que se opõe a Lula. Em alguns momentos pareceu ter se inspirado no então candidato petista em 2002, ao pregar que o Estado tem que ouvir de trabalhadores a empresários, do mercado produtivo ao financeiro.
O presidenciável tucano sabe que não será eleito apenas com voto dos insatisfeitos. Que para ele não serve ser o mais forte adversário. Precisa agradar também os aliados do governo. Não por outra razão disse que refuta a disputa de "azuis contra vermelhos". Sabidamente, o azul é a cor do PSDB e vermelho do PT. Essa metáfora de cores retrata com perfeição o dilema de Serra.
No país há historicamente uma disputa entre liberalismo e trabalhismo. A depender do analista, essa disputa pode ser vista como entre social-democracia e populismo ou até entre elite golpista e povo. O fato é que o pós-FHC consolidou a força dos "vermelhos" no imaginário popular. Neoliberal virou um termo ofensivo, ao passo que estatizante soa quase nacionalista ante a forma como foram feitas as privatizações. Os azuis - PSDB, DEM e PPS- perderam força nas últimas eleições. Para Serra é indispensável fugir da polarização nestes parâmetros.
O discurso do PSDBista estava adequado às suas pretensões. O diabo é que ele não conseguiu fundamentar na prática sua retórica. Em São Paulo a PM do ex-governador entrou em conflito com estudantes, professores e até com a polícia civil. Seu governo vendeu o banco do estado e tentou vender a companhia energética. O próprio evento de lançamento não teve a benção popular, sendo um evento restrito a correligionários de uma aliança restrita a partidos hoje distanciados ideologicamente da massa trabalhadora.
Para os mais exigentes, o tom do discurso derrapa ao copiar a máxima de Obama: "nós podemos". Repedido diversas vezes, o bordão "o Brasil pode mais" não deixará de soar uma imitação oportunista aos mais esclarecidos. E atento, Lula ontem mesmo avisou: "Não adanta imitar o Obama porque ele já disse que EU sou o cara!"