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terça-feira, 16 de novembro de 2010

O futuro governo Dilma e as lições de Maquiavel.


“Nada é tão fraco e instável quanto a potência
 de quem não se apóia na própria força.”

Como se dará a governabilidade para Dilma? Com tradição em quedas de mandatários, o país conviveu na última campanha com termos como “golpismo”, “autoritarismo”, “risco à democracia e a liberdade”. É preciso considerar que a futura presidente enfrentará interesses que transcendem a disputa partidária. Neste cenário, poucos conselheiros seriam tão precisos quanto o polêmico Maquiavel.
Para o autor de O Príncipe, as tropas de um governante seriam de três tipos: próprias, auxiliares e mercenárias. As primeiras seriam leais, ligadas a facção do líder desde sua origem. As segundas surgem de acordos com grupos externos, sendo mais leais a estes. O terceiro grupo é recrutado pelo dinheiro e age em razão deste.
A base política de Dilma é precária já no que tange as suas próprias tropas. Ela não tem liderança histórica dentro de seu partido. Entretanto, se conseguir contar com a lealdade do PT em razão do prestígio de Lula, terá o apoio da maior bancada na Câmara (88 deputados), segunda maior do Senado (11 senadores) e da militância mais bem estruturada do país.  
A principal força auxiliar do governo, o PMDB (16 senadores e 79 deputados), possui um tamanho compatível ao do PT.  Ambos terão cinco governadores, bancada no congresso e tempo de TV parecidos. PT e PMDB também são os partidos com presença significativa em todas as regiões do país e na grande maioria dos municípios. Há ainda forças importantes como o PSB de Ciro e seus seis governadores e do PR e PP que juntos somam mais deputados federais (82) que o PMDB e 7 senadores (o que representaria a terceira maior bancada da casa).
Sobre o perigo do apoio de forças auxiliares Maquiavel dizia: “Se são vencidas, representam a derrota; se vencem, aprisionam quem as utiliza”.  Para o autor, é preferível perder com as próprias forças a vencer com este tipo de ajuda. O risco é que organizadas e leais a outros, estas forças podem usurpar do governante o poder. É possível verificar que o PMDB apossou-se de um espaço caro ao PT no governo que se encerra. Um exemplo disto foi o desgaste de precisar apoiar Sarney quando ele esteve bombardeado por escândalos. Por outro lado, a força adquirida pelo PMDB obrigou o PT a ceder espaço nos Estados na disputa de agora.
Em tempos de paz, as forças mercenárias são as que se aproximam do líder e lhe dão sustentação por interesses econômicos. Com a força econômica do executivo federal, qualquer mandatário terá este tipo de apoio. Ele está difundido dentro dos diversos partidos políticos e nos demais setores auxiliares a um governante, como sindicatos, movimentos sociais, igrejas, imprensa, empresários, dentre outros setores organizados.
Segundo Maquiavel, aquele de depende de mercenários é “despojado na guerra pelos inimigos, e na paz por eles próprios”. Quem apóia por dinheiro, tende a ser indisciplinado e covarde. Ou seja, costuma a se desmobilizar ou mudar de lado quando muda a perspectiva de poder.
O risco causado por forças mercenárias vem da sua inépcia e das forças auxiliares de sua eficácia. Afinal, os primeiros não ajudam o suficiente nas crises, e os segundos podem ter interesse em causá-las.  
O pensador italiano ensinava que muitas vezes é impossível prescindir dos três tipos de tropa para chegar o poder. Entretanto, o êxito de um governo depende do manejo e ponderação destas forças. Logo, a gestão de Dilma dependerá organização dos partidos auxiliares, especialmente o PMDB. Se este estiver disciplinado e leal a uma liderança alternativa, poderá tumultuar o governo. Caso se porte como um “ajuntamento” mercenário, seguirá a maré de popularidade da presidente. Em todo caso, dependerá sempre do apoio Lula. Sem este sequer terá forças próprias para contrapor adversários fora e dentro do governo.

O PSDB precisa ser renovado

Por Alberto Carlos Almeida - Autor de A Cabeça do Brasileiro, livro de política eleitoral mais influente no Brasil nos últimos anos.

A derrota precisa ter consequências. É inacreditável a discussão corrente sobre quem é responsável pela terceira derrota consecutiva do PSDB para presidente e a segunda derrota de José Serra. Uns dizem que o responsável é Aécio Neves, outros dizem que não. Só não vê quem não quer: os responsáveis pela derrota são os dirigentes nacionais do PSDB, a executiva nacional do partido. Nada é mais simples do que essa constatação. Foi a direção nacional do partido que decidiu escolher Serra candidato a presidente, foi a mesma direção que decidiu dar carta branca para Serra e seu exército de Brancaleone fazer a campanha como melhor lhe conviessem. O tempo de TV é do partido, mas Serra o utilizou da forma que quis. O responsável por isso foi o partido.
O desempenho eleitoral de Serra foi pífio: ele teve somente 44% dos votos válidos, isto é, apenas 2,4% a mais de votos do que Geraldo Alckmin teve no primeiro turno de 2006 (41,6%). Alckmin disputou a eleição contra Lula, que disputava uma reeleição. No linguajar político tradicional, Serra perdeu para um poste, o poste que Lula resolveu apoiar. Em 2009 foram inúmeras as vezes que Aécio afirmou que estava à disposição do partido para ser candidato. O partido se dobrou a Serra e deixou o ex-governador de São Paulo anunciar a sua candidatura quando considerasse mais adequado.

O deputados federais em 2006 e somente 53 em 2010. Suponho que não seja possível colocar a responsabilidade de mais essa derrota nas costas de Aécio. Porém, o resultado negativo também se aplica ao Senado. A bancada do PSDB em 1998 era de 16 senadores, foi para 14 em 2002, aumentou um pouco em 2006 indo para 15 senadores e agora o PSDB sofreu um revés histórico: tem apenas 10 senadores. Aliás, destes 10, 2 foram eleitos por Minas, ao passo que em São Paulo foi eleito só um senador. Suponho, mais uma vez, que Aécio não possa ser responsabilizado por isso.
O meu sonho, que, lamento de antemão, não será realizado, é ver publicada na próxima semana uma breve carta dos dirigentes nacionais do PSDB assim redigida: "Nós que defendemos a candidatura de Serra em 2010, nós que aprovamos a estratégia eleitoral do PSDB na última eleição estamos vindo a público para reconhecer que fomos derrotados. O desempenho de nosso partido ficou muito aquém do esperado. Diante desse fato, apresentamos aqui a renúncia de nossos cargos de direção partidária. Com isso esperamos que o partido se renove. Desejamos também que outros políticos possam ocupar os nossos lugares e levar o partido a voltar a crescer nas eleições de 2014. Reconhecemos que foi um erro não realizar prévias, assim como também foi um erro dar a legenda novamente para a candidatura Serra. Mais uma vez o partido perdeu a eleição presidencial e viu suas bancadas no Senado e na Câmara ser reduzidas. Desejamos aos futuros dirigentes de nosso partido boa sorte".
Não adianta tapar o sol com a peneira. É assim que acontece em todo lugar: a derrota eleitoral tem consequências. É assim na Alemanha, na França, nos Estados Unidos e em muitos outros países. Existem responsáveis pela derrota. Se aqueles na direção nacional do PSDB que apoiaram a escolha de Serra não fizerem isso, eles deveriam aproveitar o ensejo e mudar o nome do órgão máximo do comando do partido de executiva nacional para oligarquia nacional. Somente a oligarquização de um partido pode explicar a falta de renovação diante de três derrotas nacionais consecutivas.
É preciso mudar de rumo. Para que isso seja feito, é preciso mudar os dirigentes, em particular os dirigentes serristas. Aliás, a derrota e o fracasso no Brasil têm consequências sempre que se trata da iniciativa privada, sempre que se trata das empresas. É justamente por isso que elas sobrevivem. Se o PSDB não se renovar profundamente agora, corre o sério risco de continuar perdendo terreno eleitoral em 2014.
Fico estarrecido quando vejo logo após a eleição vários deputados serristas de carteirinha falando na mídia com enorme desenvoltura, dizendo o que o partido deveria fazer ou deixar de fazer no futuro, como se eles não tivessem nada a ver com a terceira derrota consecutiva. Eles deveriam ter a mesma dignidade que teve Barack Obama no dia seguinte às eleições legislativas dos EUA e irem para a mídia dizer que fracassaram, se equivocaram, tomaram a decisão errada ao escolher Serra e dar a ele carta branca para fazer a campanha eleitoral que fez. Obama é presidente em meio de mandato, eles não são. Assim, deveriam abrir mão de seus cargos de dirigentes partidários e dar a vez para os mais jovens.
Aqueles que quiserem objetar os argumentos acima com o fato de Lula ter disputado e perdido três vezes a eleição presidencial eu contra-argumento afirmando que o PT não tinha outra opção naquelas eleições que não fosse Lula. Agora em 2010 o PSDB pode escolher entre Serra e Aécio. Além disso, nas três eleições em que Lula foi derrotado o PT cresceu na Câmara e no Senado. Há ainda a objeção de que o PSDB tem agora mais governadores do que tinha há quatro anos. Mais uma vez se trata de uma objeção falaciosa: a direção nacional do partido não tem influência sobre as disputas regionais. Serra e seus dirigentes preferiam que Álvaro Dias tivesse sido o candidato no Paraná, Beto Richa se impôs e venceu (cabe aqui a observação que mesmo depois de o PSDB do Paraná não ter dado a candidatura a governo para Álvaro Dias, mesmo assim Serra o quis como seu candidato a vice). Geraldo Alckmin nunca foi do mesmo grupo político de Serra. Serra preferia ganhar com Kassab, como fez na eleição para prefeito de 2008. Alckmin se impôs e venceu. Em Minas nem se fala: a direção nacional do partido não teve nenhuma influência na estratégia de sucesso de Aécio, que foi coroada com a eleição de Antônio Anastasia com 28 pontos percentuais de vantagem sobre Hélio Costa, sem falar dos dois senadores.
Mudando de partido, duvido que alguém considere que o bom desempenho eleitoral do PSB ao eleger um número recorde de governadores possa ser atribuído à direção nacional do partido. Foi a lógica regional que regeu o sucesso dos governadores do PSB. A lógica partidária no Brasil respeita a lógica da federação, com exceção do PT. A estratégia nacional do PT foi abrir mão de candidaturas aos governos estaduais em troca de eleger senadores. Ao que tudo indica, funcionou. Os senadores eleitos agora serão candidatos ao governo de seu Estado daqui a quatro anos. Não há o que corrigir quando se vence, mas é preciso mudar a rota quando se perde.
Façamos uma caricatura e proponhamos que a direção nacional do PSDB seja a mesma que é hoje em 2014. Além disso, sugiro que Serra seja novamente candidato com o mesmo marqueteiro. Pode ser que assim o PSDB venha a vencer Dilma, Lula e um PT mais forte. Alguns dirão "nem tanto ao mar nem tanto à terra". Ora, mas não vem sendo justamente essa, do nem tanto ao mar nem tanto à terra, a estratégia do PSDB nos últimos anos? Não me consta que ela tenha funcionado. A direção do PSDB não tem se renovado ou tem se renovado de maneira insuficiente. Passadas duas eleições, por exemplo, esta mesma direção que não se renova de forma adequada não se preparou para lidar com o tema das privatizações.
Pode ser que para a executiva nacional do PSDB tenha sido uma surpresa o fato de o PT ter utilizado o tema das privatizações na eleição de 2010. A propósito, vale aqui um aviso baseado no mais tosco senso comum: em 2014 o PT utilizará novamente o tema das privatizações na eleição presidencial. O PT fez isso uma vez no segundo turno de 2002, fez isso a segunda vez no segundo turno de 2006 e agora repetiu a fórmula de sucesso. Onde estavam os dirigentes nacionais do partido que não o prepararam para esse embate? Eles vão dizer que estavam dirigindo o partido. Hei de concordar: dirigindo o partido rumo a mais uma derrota eleitoral.
Lutar é preciso, diriam os militantes de esquerda. Navegar é preciso, diria Ulisses Guimarães. A necessidade depende das circunstâncias. Neste momento, renovar é preciso. É preciso coragem com C maiúsculo ao PSDB. A direção partidária não é patrimônio, em que pese nossa tradição patrimonialista, deste ou daquele dirigente. Aliás, quanto a isso, valeria a pena ver que dirigentes nunca perderam assento nos cargos de direção nos últimos oito anos de derrotas consecutivas. O PSDB precisa mostrar para a sociedade, precisa mostrar para aqueles que se preocupam com o seu destino, que ele não é dominado por uma oligarquia partidária. Precisa mostrar de fato e não ficar simplesmente falando que não é. Vão se os nomes, ficam as instituições. Vão se os derrotados, ficam os vencedores. Em algum momento o PSDB derrotará o PT. Para tornar isso mais tangível, para antecipar no tempo esse desfecho, seria fundamental que o PSDB fizesse a mais profunda possível renovação em sua direção partidária, uma renovação que eliminasse todos os serristas e desse a direção do partido a políticos jovens alinhados com Aécio Neves e Beto Richa. Não custa repetir, Aécio não é o responsável pela derrota para presidente, para deputados e senadores. O grande responsável pela derrota é a direção nacional do PSDB, que deu a legenda a Serra e não utilizou uma estratégia adequada para enfrentar Lula, Dilma e o PT.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma Presidente - A "decisiva" batalha de Minas

Hoje temos a primeira mulher presidente do Brasil. Quais as razões para mais este marco no rol do "nunca antes na história deste país"? Há explicações pautadas na economia, no carisma de Lula, nos erros da oposição, dentre outras. Chama atenção, mais uma vez, a distribuição geográfica dos votos. Serra venceu nos estados do sul, centro-oeste (exceto em Brasília) e em São Paulo. Dilma venceu no nordeste, no norte (com exceção de Roraima e Acre) e em Minas Gerais. Ou seja, a eleição foi novamente dividida entre eixos sudoeste e nordeste de forma clara. - http://eleicoes.uol.com.br/2010/raio-x/2/presidente/votacao-por-estado/
Esta divisão enseja as mais variadas análises. De um lado há a idéia de que o país se divide entre ricos e pobres, entre eleitores mais conscientes e os mais susceptíveis ao populismo. De outro existe o pensamento que o país se divide entre classe ascendente no norte e elite decadente no sul. Esta divisão era prevista. Dela decorreu a tese de que a eleição deveria ser decidida em Minas. Este pensamento demonstra o quanto o país ainda se vê sob a perspectiva da rica região sudeste. Esta visão ofusca a compreensão do processo vivido no Brasil, incluído o entendimento da eleição de Dilma.
Em seu discurso ao fim da apuração, Serra não mencionou o nome de Aécio (mencionou de outros líderes tucanos como Alkimin). Analistas viram neste silêncio a mensagem de que Serra atribui a Minas Gerais peso decisivo em sua derrota. Revelou compartilhar da incompreensão do país que debilitou a oposição nos últimos anos.
Escrevi aqui (http://livrepraque.blogspot.com/2010/05/favoritismo-alem-das-pesquisas.html) que, a despeito do desfecho em Minas, a vitória de Dilma poderia estar garantida por três grandes trunfos - Pernambuco, Bahia e Maranhão. Na Bahia Dilma venceu por 70,85% a 29,15%. Em Pernambuco por 75,65% a 24,35%. No Maranhão por 79,9% a 20,91%. Só nestes estados Dilma obteve uma vantagem de  6.820.910 votos. O quarto trunfo que não antevi foi o Ceará, onde a vitória petista foi de 77,35% a 22,65%, numa diferença de  2.325.841 votos. Assim, nestes quatro estados Dilma obteve uma margem de mais de 9 milhões e cem mil votos de uma vantagem total de 12 milhões de votos no país. Considerando que em Minas se teve cerca de 10,5 milhões de votos válidos, nem se Serra tivesse 100% disto estaria eleito.
O que ocorre é que as sucessivas candidaturas de Lula, seu governo e ampla aliança partidária tornaram a candidatura de Dilma efetivamente nacional. A massacrante vitória nos estados citados são apresentadas aqui apenas como demosntração de como o Brasil é muito muito maior que o sudeste. Atribuir a Minas ou a Aécio o fracasso da oposição é insistir numa visão míope. Qualquer pessoa que deseje se tornar presidente precisa primeiro construir pontes com todo este país de dimensões continentais. Isso vale para a acreana Marina, para o "ceaense" Ciro e certanente valerá também para o mineiro Aécio.  

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Censura e Silêncio!


O nome deste blog foi inspirado em reflexões de determinado livro. Reflexões estas relacionadas à natureza humana. Entretanto, a expressão "livre pra que?" é extremamente adequada para que se faça uma análise do que vem ocorrendo na mídia brasileira.
Amaury Ribeiro é um jornalista que passou pelo O Globo, Jornal do Brasil, Estado de Minas, Istoé e vários outros veículos. Foi ganhador de
alguns dos maiores prêmios de jornalismo: o Prêmio Esso (três vezes) e o Valdimir Herzog (quatro) .
Seu nome recentemente ganhou notoriedade ao ser relacionado à violação de sigilo fiscal de pessoas ligadas a José Serra. Se ele tem culpa ou não no episódio, caberá à justiça esclarecer.
Ontem, ao sair do depoimento na Polícia Federal, ele distribuiu documentos que integrariam a CPI do Banestado, aos quais obteve acesso legal. Não se tratava de declarações de renda ou bens obtidos criminosamente. Os documentos foram xerocopiados no próprio Tribunal de Justiça de São Paulo e trazem este registro de presunção de autenticidade.
A imprensa que tanto brada contra qualquer tipo de regulação, falando sempre em censura, agora se cala ante os documentos apresentados. Há um completo silêncio inclusive sobre a carta aberta do premiado jornalista a seus colegas:


No Blog do Nassif  podem ser baixados os documentos oferecidos por Amaury, em pdf.

sábado, 16 de outubro de 2010

A hipocrisia como arma política

Deu na Folha de S. Paulo

Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna
Reportagem tentou ouvir mulher de candidato tucano por dois dias, sem sucesso

Mônica Bergamo

O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por "valores cristãos", que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra.
Num evento no Rio, há um mês, a psicóloga teria dito a um evangélico, segundo a Agência Estado, que a candidata Dilma Rousseff (PT), que já defendeu a descriminalização do aborto, é a favor de "matar criancinhas".
Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido.
Depois do golpe militar no Brasil, Serra se mudou para o Chile, onde conheceu a mulher. Em 1973, com o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder, o casal se mudou para os Estados Unidos.
A Folha tentou falar com Monica Serra durante dois dias para comentar o relato das ex-alunas, sem sucesso.
Um dia depois do debate da TV Bandeirantes, no domingo, 10, a bailarina Sheila Canevacci Ribeiro, 37, postou uma mensagem em seu Facebook para "deixar a minha indignação pelo posicionamento escorregadio de José Serra" em relação ao tema.
Ela escreveu que Serra não respeitava "tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Monica Serra já fez um aborto". A mensagem foi replicada em outras páginas do site e em blogs.
"Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático", escreveu Sheila no Facebook. "Devemos prender Monica Serra caso seu marido fosse [sic] eleito presidente?"
À Folha a bailarina diz que "confirma cem por cento" tudo o que escreveu. Sheila afirma que não é filiada a partido político. Diz ter votado em Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno. No segundo, estará no Líbano, onde participará de performance de arte.
Se estivesse no Brasil, optaria por Dilma Rousseff (PT). Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, que foi aluna de mestrado na USP de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993. Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado pela primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008).
Militante feminista, Majô foi candidata derrotada a vereadora e a vice-prefeita em Osasco pelo PSDB.
A socióloga disse à Folha estar "preocupada" com a filha, mas afirma que a criou para "ser uma mulher livre" e que ela "agiu como cidadã".
Sheila é casada com o antropólogo italiano Massimo Canevacci, que foi professor de antropologia cultural na Universidade La Sapienza, em Roma, e hoje dirige pesquisas no Brasil.
A Folha localizou uma colega de classe de Sheila pelo Facebook. Professora de dança em Brasília, ela concordou em falar sob a condição de anonimato.
Contou que, nas aulas, as alunas se sentavam em círculos, criando uma situação de intimidade. Enquanto fazia gestos de dança, Monica explicava como marcas e traumas da vida alteram movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana.
Segundo a ex-estudante, as pessoas compartilhavam suas histórias, algo comum em uma aula de psicologia.
Nesse contexto, afirmou, Monica compartilhou sua história com o grupo de alunas. Disse ter feito o aborto por causa da ditadura.
Ainda de acordo com a ex-aluna, Monica disse que o futuro dela e do marido, José Serra, era muito incerto.
Quando engravidou, teria relatado Monica à então aluna, o casal se viu numa situação muito vulnerável.
"Ela não confessou. Ela contou", diz Sheila Canevacci. "Não sou uma pessoa denunciando coisas. Mas [ela é] uma pessoa pública, que fala em público que é contra o aborto, é errado. Ela tem uma responsabilidade ética."

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pesquisas do Segundo Turno

Datafolha: Dilma 54%, Serra 46%
Ibope: Dilma 53, Serra 47%
Sensus: Dilma 52,3, Serra 47,7%
Vox Populi: Dilma 54,5%, Serra 45,5%


O eleitor do primeiro turno, em regra, já tem um plano B. Quem votou em Marina e nos demais candidatos já tinha em mente em quem votar no segundo turno. Assim, as primeiras pesquisas não mostram exatamente a evolução da intenção do eleitor, mas a reorganização política diante do novo quadro. 53% a 47%, este é mais ou menos o patamar de votos de cada candidato. O eleitor do segundo turno tende a ser menos flexível. A essa altura mudar de candidato parece um pouco como mudar de time. Isto não significa que a eleição está definida em favor de Dilma. Com uma margem tão estreita, fatores como a abstenção ou boca de urna podem ter um peso decisivo.
Se o QG do PT deve estar em alerta e o do PSDB animado, isso pode mudar com as próximas pesquisas. É como num jogo de futebol em que o time que perdia por 2 a 0 faz um gol no segundo tempo. O time que diminuiu a diferença passa a jogar mais animado, mas, se o jogo terminar assim, continuará saindo derrotado.

Voto consolidado.
As medições espontâneas, que indicam o eleitorado mais convicto, apontam Dilma com 45% e Serra com 40%. Assim, existe uma massa "fluida" de eleitores em torno de 15%. É difícil afirmar com precisão o que distingue esses eleitores dos demais. Pode ser que sejam menos interessados por política, seja pela baixa escolaridade, por mera apatia ou maior desilusão com o processo eleitoral. Sabe-se que entre os indecisos costuma haver um percentual maior de mulhers e de eleitores de baixa renda. Na falta de dados mais, é impossível dizer que este eleitor atue de forma diferente dos demais. Fica claro que entre os não convictos, Serra tem que ganhar na proporção de 2 para 1. É um grande desafio considerando os números do primeiro turno.   

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nem Onda, Nem Marola Verde - ou - O Peso das Outras Vias

Antes da eleição escrevi sobre Ciro e Marina, dois personagens de destaque neste pós 1° turno (http://livrepraque.blogspot.com/2010/04/oposicao-verde-amarela.html). Ciro foi elevado à condição de coordenador político de Dilma. Marina é disputada como grande trunfo para o 2° turno.
Na análise feita em abril, eu destacava que Ciro e Marina poderiam quebrar a polarização PT/PSDB, enriquecendo o debate de forma benéfica para nossa democracia. Dizia que se pudessem disputar unidos as eleições, partiriam de um bom patamar nas pesquisas e razoável tempo de TV. Mesmo limitada no horário eleitoral gratuito e sem Ciro, a candidata verde obteve um excelente resultado.
A candidatura de Marina trouxe um simbolismo ainda não completamente compreendido no meio político. Por um lado, mostrou que o eleitor é mais plural que as duas opções que os gabinetes de Brasília (e São Paulo) tentaram impor ao país. Por outro lado, o cidadão se mostrou sensível ao discurso da ética, do crescimento sustentável, da política pautada em ideias. Porém, o saldo mais parente da surpreendente votação de Marina não está à altura dos méritos apontados.
A "onda verde" talvez seja a pior definição sobre os resultados da eleição. Pressupõe a ideia de um movimento brusco, impensado. Não se pode ter certeza de que os votos a Marina foram deste ou daquele "tipo de eleitor". A única certeza é sobre a distribuição geográfica dos votos. Nem mesmo as pesquisas, tão imprecisas para o caso, servem de parâmetro para traçar o perfil deste eleitorado. Ainda que seja verdade que a candidatura do PV foi impulsionada por conservadores e jovens urbanos, não há razão para considerar que decisão destes seja menos qualificada que a dos demais. 
A tese da "onda verde" mascara a compreensão do processo político vivido. A julgar pelas notícias e análise recentes, o legado da terceira força na eleição é um neo-ambientalismo um tanto hipócrita e uma religiosidade fora de lugar. Muito pouco, senão um equívoco.
As pesquisas de abril deste ano já apontavam a soma das intenções de voto em Marina e em Ciro em cerca de 19% (http://noticias.uol.com.br/fernandorodrigues/pesquisas/2010/1turno/presidente.jhtm). Este dado é relevante na desconstrução da ideia de que uma onda levou o país ao segundo turno. Talvez não seja atoa o chamamento feito a Ciro pela campanha de Dilma. Mesmo diante da polarização de 2006, o jovem e radical Psol obteve ao lado do Cristóvão Buarque (cuja base política, Brasília, representa 1,35% do eleitorado nacional) quase 10% dos votos. Há na sociedade mais espaço para opções fora do cardápio restrito oferecido por Lula e pelo PSDB paulista nesta eleição. Compreender as razões deste espaço é a chave para moldar a política nacional nos próximos anos. A outra opção é aceitar que para além das praias tucanas e PTistas só existem passageiras marolas.  

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sinal Amarelo?

Jânio de Freitas, jornalista da Folha de São Paulo, certa vez definiu Itamar Franco, quando no exercício da presidência, como um imbecil. A Folha de São Paulo é acusada de manter um cobertura parcial da política nacional. Dentre os casos mais relevantes, a FSP publicou em matéria de capa do jornal uma ficha falsa de Dilma no DOPS que, segundo o próprio jornal, foi recebida por e-mail (ou seja, não foi checada sua autenticidade).
O jornal e o jornalista que tanto extrapolaram no tom da cobertura eleitoral, agora parecem temer os rumos radicais que o processo político pode tomar no país. A capacidade de análise externada no artigo abaixo atesta que a precária linha editorial adotada pelo jornal não se deve a limitações técnicas ou intelectuais de seus colaboradores. Desta vez, o incendiário parece correr para apagar o fogo que tanto atiçou:

Folha de S.Paulo -
Janio de Freitas: Além do último sinal
JANIO DE FREITAS
Além do último sinal
A entrada em cena de forças extrapolíticas reproduz passo que pode levar situações tensas a fugir do controle

UM AVISO de perigo, na via política, foi ultrapassado.
A entrada em cena de forças extrapolíticas, motivadas pelo confronto entre Lula e os meios de comunicação com maior presença, reproduz o mais conhecido dos passos que levam situações tensas a enveredar por processos que fogem ao controle com facilidade. E, se isso ocorre, põem em risco a integridade institucional -o próprio regime.
Se os meios de comunicação têm extrapolado ou não, no tratamento aos casos do sigilo violado na Receita Federal e das irregularidades originadas no Gabinete Civil da Presidência, até agora não houve indício algum da finalidade golpista acusada por governistas.
O que pode ser apontado são propósitos eleitorais. Mas os meios de comunicação brasileiros nunca deixaram de ser parte ativa nos esforços de conduzir o eleitorado. Sua origem e sua tradição são de ligações políticas, como agentes de facções ou partidos. Só em meado do século passado dá-se a primeira e derrotada tentativa, no "Jornal do Brasil", de prática desconectada de segmentos políticos.
Na atual campanha, os meios de comunicação com maior presença são passíveis de acusações como desequilíbrio no ânimo em relação a este ou àquele candidato; de parcialidade no interesse em eventos de um ou de outro, e, no noticiário das irregularidades, de precipitações e erros que são os mesmos cometidos na cobertura de todos os escândalos.
À parte atingida cabe reagir na medida do possível, que, em geral, não é muito. E às vezes é quase nada, porque a própria reação está sujeita ao que é acusado no principal. Mas assim é a etapa em que a sociedade brasileira ainda está.
Daí a golpismo, na atualidade, a diferença é total. Idêntica à diferença entre prática primária da democracia e o golpismo com que o país conviveu por décadas, até o maior dos golpes.
No outro lado, nenhum fato sustenta a ameaça à democracia atribuída a palavras ou atos de Lula. As reações ao que considera insultuoso, ou injusto, ou inverdadeiro são à sua maneira: com destempero deplorável, nas palavras e na teatralidade da exaltação. Sem consideração alguma, até muito menos do que pelos adversários, pela própria condição de presidente da República. A faixa presidencial ainda não se distinguiu, para Lula, da camisa do Sindicato dos Metalúrgicos.
Nenhum espetáculo e nenhum ato presidencial pode ser apontado, com seriedade, como ameaça à democracia. Nem o mais acusado deles, a alegada ameaça à liberdade de imprensa. A proposta petista de criação do Conselho Nacional de Jornalismo, ou algo assim, vale mais uma discussão do que poderia ser, a serviço de todas as partes, do que qualquer das acusações trocadas.
Conselho de Jornalismo não é embaixada do inferno, não é chavismo, não é ditadura, necessariamente. São muitos os países "civilizados" e democráticos em que tal conselho existe.
Na França, por exemplo, foi criado há muito tempo, prestou muitos serviços e ninguém pensa em dissolvê-lo, assim como o da TV. A Inglaterra, os países nórdicos e outros têm as suas formas de conselho. Discuti-lo no Brasil seria difícil, mas não ameaçaria a democracia ou a liberdade de imprensa.
A esse conjunto de desproporções e deformações vêm somar-se três iniciativas. Sindicatos e jornalistas resolvem fazer uma manifestação pública contra os meios de comunicação. O que pode vir daí senão o acirramento de um lado e de outro? A dez dias das eleições, nem alguns trocados eleitorais essa manifestação localizada pode obter. Sua aparência é só a de um ato de indignação.
A pouco mais de uma semana das eleições, professores, advogados, escritores, e outros, fazem manifestação pública e lançam um manifesto "contra a marcha para o autoritarismo". Haverá mesmo tal marcha, pelo fato de que Lula, nos estertores do seu mandato, rebaixa a função presidencial à de marqueteiro e cabo eleitoral? Se não está aí, o que indicaria que a prevista eleição de Dilma Rousseff é a marcha para o autoritarismo? É óbvio que o papel assumido por Lula macula a disputa.
Mas o que mais suscita reação, parece claro, não é o papel em si, que a lei nem cuidou de restringir: é que Lula o assume do alto de uma popularidade devastadora, que cai sobre os adversários. Nem por isso, no entanto, até agora sinalizadora de ameaças à democracia.
Por fim, um convite. O Clube Militar convida para um "painel", às 15h de hoje em sua sede no Rio, com dois jornalistas de oposição a Lula e ao governo. Sobre nada menos do que "A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão". Tivemos longo aprendizado do interesse militar por ameaças à democracia e pelas restrições à liberdade de expressão. O título do "painel" não esclarece o sentido atual dado às expressões, mas tanto faz. Sua realização é sugestiva por si só.
As três iniciativas, à parte seus objetivos, são formas fermentadas das tensões decorrentes do processo eleitoral e das feições que tomou. Mas correm o risco de estimular projeções para depois do resultado eleitoral, e sobre ele. E, a depender do resultado, o risco de transpor o início do futuro governo. Como já aconteceu tantas vezes, nenhuma para resultar em algo bom.





sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Medo e o Autoritarismo

Há muitas razões que explicam a gradativa redução de textos neste blog. A mudança de rotina de seu autor e a falta de tempo são algumas delas. Há ainda o fato de a eleição, tema de grande interesse deste blogueiro, estar se definindo dentro de uma previsibilidade quase enfadonha. Outra razão é a enorme quantidade de informação disponível em sites e portais. Há muita gente bem informada e qualificada escrevendo sobre o assunto, ao passo que se torna mais difícil externar algo relevante sem cair no óbvio. Mas há uma sombra que permeia os jornais, a televisão e sites que anda me inquietando: a ameaça totalitária.
Grandes jornais e revistas, sob o coro da campanha Serrista, alardeiam a ameaça às liberdades democráticas que representaria o PT e a eventual eleição de Dilma. Os recentes escândalos seriam prova da apropriação do Estado pelo partido. A reação indignada às críticas da imprensa estaria relacionada ao desejo de estabelecer controle sobre a mídia ou de censurá-la.
Por outro lado, muitos blogs, revistas e jornalistas, sob o aplauso PTista, denunciam o golpismo da oposição. Alertam que os grupos de mídia que atacam o governo em nome da democracia foram os mesmos que estiveram ao lado da ditadura implantada em 64, ou se beneficiaram com ela. 
Para este blog, o primeiro golpe imperdoável na recente democracia brasileira tem as digitais do Sr. Fernando Henrique Cardoso. Contando com a conivência da maior parte da mídia, FHC mudou as regras do jogo eleitoral sentado na cadeira de presidente. Um escândalo ratificado pelo povo com sua re-eleição. FHC, a grande imprensa e o eleitor preferiram o casuísmo à estabilidade das regras. Não creio no argumento de que o eleitor foi conduzido por barões ou manipulado pela elite. O povo fez seu julgamento. 
A despeito de os dois principais partidos da disputa eleitoral de 2010 estarem usando do medo do autoritarismo para obter dividendos eleitorais, a ameaça que parece mais concreta vem do mesmo lado sócio-político que esteve alinhado ao golpismo desde a época de Getúlio Vargas. Transcrevo abaixo trechos de páginas que me chamaram atenção para o tamanho do ímpeto de certos setores nacionais: 

Eu não sei o que meus amigos farão, mas eu sei o que eu farei: irei para as ruas, resistirei a qualquer tentativa de golpe, o Brasil não é Honduras.
Não é possível que cinco corporações midiáticas, sem nenhum fato concreto, sem nenhuma prova continuem agindo como estão, buscando destruir a respeitabilidade de instituições sérias do país como a Polícia Federal, a Receita Federal, o Banco do Brasil, a Casa Civil da República.
Não é possível que o que há de mais grotesco na imprensa se junte com generais de pijama (*) e tenham a coragem e desfaçatez de pôr na boca palavras tão caras ao povo brasileiro como DEMOCRACIA, COMBATE À CENSURA, PATRIOTISMO.
Para este pequeno grupo de golpistas representado na mídia velha, democracia significa a continuidade deste grupo controlando a comunicação no país, a permanência dele dando as cartas no intuito de manter um país excludente onde só este grupo tem a liberdade de dizer as sandices que lhe vier à telha.
Alguém em sã consciência pode imaginar que deve ser levado a sério um sujeito 171 que o Jornal 171 afirmou ser sócio de uma empresa e a empresa prova que não é e fica por isso mesmo?
Alguém pode seriamente levar a sério um sujeito processado duas vezes, que foi preso por dez meses por interceptação de roubo de cargas, proprietário de uma empresa nada idônea, que tem recusado um empréstimo de banco público, acusar impunemente o governo de exigir propina, quando o que ocorreu foi a recusa de empréstimo de dinheiro público para estelionatário? E finalmente como é que a palavra de um estelionatário (foi só a palavra não há uma única prova apresentada) pode virar manchete do Jornal 171, depois ocupar vários minutos na TV filha do golpe militar (que é concessão pública e ignora totalmente este fato) legitimando as acusações deste estelionatário contra uma ministra? Em que país com uma imprensa séria e honesta esta fábula ganharia tanta repercussão?
É contra esta nova tentativa de golpe de um pseudo-jornalismo que nasceu com o golpe militar, sobreviveu sustentado por golpistas que estarei no ato em defesa da Democracia e contra o golpismo midiático.
COMPAREÇA AO ATO EM DEFESA DA DEMOCRACIA!
CONTRA A BAIXARIA NAS ELEIÇÕES!
CONTRA O GOLPISMO MIDIÁTICO!
Na reta final da eleição, a campanha presidencial no Brasil enveredou por um caminho perigoso. Não se discutem mais os reais problemas do Brasil, nem os programas dos candidatos para desenvolver o país e para garantir maior justiça social. Incitada pela velha mídia, o que se nota é uma onda de baixarias, de denúncias sem provas, que insiste na “presunção da culpa”, numa afronta à Constituição que fixa a “presunção da inocência”.
Como num jogo combinado, as manchetes da velha mídia viram peças de campanha no programa de TV do candidato das forças conservadoras.
Essa manipulação grosseira objetiva castrar o voto popular, e tem como objetivo secundário deslegitimar as instituições democráticas a duras penas construídas no Brasil.
A onda de baixarias, que visa forçar a ida de José Serra ao segundo turno, tende a crescer nos últimos dias da campanha. Os boatos que circulam nas redações e nos bastidores das campanhas são preocupantes e indicam que o jogo sujo vai ganhar ainda mais peso.
Conduzida pela velha mídia, que nos últimos anos se transformou em autêntico partido político conservador, essa ofensiva antidemocrática precisa ser barrada. No comando da ofensiva estão grupos de comunicação que – pelo apoio ao golpe de 64 e à ditadura militar – já mostraram seu desapreço pela democracia.

‘A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão’
16 de setembro de 2010, em Divulgação, por Galante
Ilmos. (as) Srs. (Sras)
O Clube Militar, preocupado com o panorama político brasileiro, nestes últimos anos vem realizando uma série de atividades voltadas para a preservação da unidade nacional e da democracia no nosso País. Assim, além de eventos que colocou em discussão a defesa da Amazônia, particularmente o problema em Roraima, também tratou de reunir grupos de civis e militares da reserva, de diferentes estados, em três “Encontros Pela Democracia”, sendo dois em 2009 e um em março do corrente ano. Neste último, realizou-se o painel denominado “PNDH-3: A Democracia Ameaçada”, com a participação do Jornalista Antonio Carlos Pereira, do Dr. Ives Gandra Martins e do Min. Waldemar Zveiter.
Agora, apesar de premidos pelo tempo, mas em face do previsto naquele PNDH-3 e da última reunião do “Foro de São Paulo”, que tornam clara a intenção de restringir a liberdade de expressão nos países latino-americanos, inclusive no nosso, realizaremos o Painel “A DEMOCRACIA AMEAÇADA: RESTRIÇÕES À LIBERDADE DE EXPRESSÃO”, no próximo dia 23 de setembro (5ª Feira), no horário das 15:00 às 17:00 horas, no Salão Nobre da Sede Principal do Clube Militar (Av. Rio Branco, Nº 251, Centro, RJ
Considerando o trabalho sério, competente e de elevado profissionalismo que o evento exige, foram convidados três painelistas de alto gabarito e um mediador de reconhecida competência e experiência nesse mister. Assim, foram confirmadas as participações dos Jornalistas MERVAL PEREIRA e REINALDO AZEVEDO e do Diretor de Assuntos Legais da ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Dr. RODOLFO MACHADO MOURA, restando pendente a confirmação de apenas um dos quatro convidados.
Em face do acima exposto, o Presidente do Clube Militar convida V.Exa/V.Sa. para o referido Painel, que contará com o apoio do “Instituto Millenium” e de “THEMAS” (Centro de Estudos Políticos, Estratégicos e de Relações Internacionais).
CLUBE MILITAR
“A Casa da República”
DEMOCRACIA – SOBERANIA – UNIDADE NACIONAL – PATRIOTISMO
COLABOROU: Marco Balbi

sábado, 4 de setembro de 2010

"Jamais rotularemos os adversários como inimigos"

Da Folha de São Paulo
FERNANDO DE BARROS E SILVA

Morte e Vida Francenilda SÃO PAULO -
A ala "Maçaranduba" da coligação "O Brasil Pode Mais", aquela para quem o que faltava ao programa de José Serra era "porrada", não tem mais do que reclamar. Na noite de quinta-feira, na TV, o tucano foi ao ataque e apostou suas fichas no "tudo ou nada".
Talvez não restassem muito mais opções a Serra. Não só à luz da dificuldade em que se encontra sua campanha mas, também, em razão do significado, ao mesmo tempo pessoal e político, que o escândalo da Receita tem para a candidatura.
A um mês da eleição, precisando tirar seis pontos de Dilma Rousseff para provocar o segundo turno, Serra radicalizou e fez um programa de teor inteiramente negativo, em que ele próprio apareceu distribuindo críticas à campanha rival.
Antes dele, um apresentador veio arando o terreno, desfiando, em tom "soft-alarmista", um enredo que começava com o paralelismo um tanto forçado entre o caso Lurian e o caso Veronica ("a mesma baixaria contra a filha do Lula agora é usada contra a filha de Serra"). A seguir, passava pelos aloprados ("ninguém foi julgado nem punido"), pelo escândalo do caseiro ("não deu em nada", mas sem citar Palocci, o petista amigo) e pelo mensalão ("ninguém foi preso").
Feito o bombardeio, surge então Serra, como quem sobrevoa um cenário de ruína moral, para transmitir seu alerta: "Se continuar assim, todos nós seremos Francenildos".
Quando lançou sua candidatura, em abril, Serra tinha como lema "o Brasil é um só" e dizia em seu discurso inaugural: "Jamais rotularemos os adversários como inimigos da pátria ou do povo".
Transcorridos alguns meses, o candidato rasgou o roteiro original e agora busca a unidade deste país "que é um só" numa suposta "condição francenilda", a que todos estaríamos condenados sob um governo Dilma.
É um apelo desesperado, de alto risco para Serra, que ainda pode funcionar. Ou representar mais um passo rumo à cova rasa que cabe à oposição no latifúndio do lulismo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dossiê da Filha de Serra - A Carta na Manga

Poucas pessoas na política nacional tem tanta afinidade com a palavra "dossiê" como José Serra. Talvez só o velho ACM tivesse fama maior de colecionador de documentos contra adversários. Em 2002, Serra teria sido responsável pela operação da PF na empresa Lúnus ligada a Rosena Sarney. O vazamento para imprensa de fotos de dinheiro achado na empresa foram mortais para a pré-candidatura da então PFLista. Na oportunidade, José Sarney denunciou no Senado que Serra teria criado no Ministério da Saúde um equipe de arapongas para montar dossiês contra adversários.
Ainda no período pré-eleitoral de 2002, Serra teria usado de dossiês para tirar os PSDBista Paulo Renato e Tasso Jereissati da disputa pela indicação do partido. Em 2006, Serra apareceu na campanha paulista como vítima do dossiê dos aloprados PTisstas. Há quem acredite que os "aloprados" foram vítimas de uma armadilha  montada pelo próprio Serra. Teriam aceitado comprar um dossiê e foram flagrados neste ato. A tese é coerente, afinal, o flagrante em uma circunstância destas é no mínimo curioso, além de conveniente para o PSDB. Se o "flagrante preparado" é especulação, a facilidade que José Serra tem, desde 2002, de pautar a cobertura da imprensa é um fato. Em todos estes episódios a versão predominante na grande imprensa lhe é favorável. Basta lembrar que em 2006 o Jornal Nacional da Globo escondeu a queda do avião da Gol para dar mais tempo e visibilidade ao escândalo dos aloprados.
Agora Serra alardeia sua condição de vítima no caso do dossiê sobre sua filha. Curioso que ele tenha guardado sua indignação para seu pior momento nas pesquisas. Desde junho deste ano o tucano ensaia denunciar o suposto jogo sujo envolvendo sua filha - http://livrepraque.blogspot.com/2010/06/dossies-e-dossies.html . Assim como no caso dos aloprados em 2006, ele conta com a cumplicidade de parte da mídia para enfatizar sua versão.
A rigor, este caso é de uma fragilidade gritante. O que se tem de concreto é que alguém, munido de um documento falso, obteve informações na Receita Federal sobre a filha do candidato PSDBista. Ora, a conduta ilícita evidente foi do falsário e não da Receita. Mas o caso é tratado com mais um avanço na direção do autoritarismo almejado pelo PT. A Receita Federal pode ter sido negligente, mas ao que tudo indica, não agiu visnado prejudicar ninguém, tampouco de obter dividendos eleitorais. Por outro lado, é difícil crer que um vazamento ocorrido há mais de um ano seja obra da coordenação de campanha de Dilma. Existem muitas teses para o vazamento, dentre as quais a que atribuem a briga entre Serra e Aécio pela indicação tucana, como bem descreve o jornalista Luis Nassif -  
A tática de se vitimizar estava na manga de Serra. Há três meses ele ensaia denunciar o fato. Se comparármos com o comportamento tucano em 2006, houve uma antecipação reveladora. Serra patinou nas pesquisas e teve que ceder ao embate agressivo pregado por alguns aliados. Não lhe serviu a campanha propositiva de "pós-lulista", a tática do medo dos radicais PTistas e a tese de comparar biografias. A estratégia de se apresentar como vítima não é nova na política. Parece ser a única que restou para Serra. A julgar pelas últimas sondagens, também não tem funcionado...    

sábado, 28 de agosto de 2010

Ibope - Agosto (Bahia/Brasil)

Nacional:

Dilma: 51%
Serra: 27%
Marina: 7%

Estadual:

Wagner: 49%
Souto: 18%
Geddel: 12%
Bassuma: 1%

Senador:
César: 35%
Lídice: 32%
Pinheiro: 29%
José Ronaldo: 9%
Edvaldo Brito: 7%
Aleluia: 6% 
Edson Duarte: 2%

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Fim da História!

"O Fim da História" é uma teoria social que supõe (ou supôs) que a democracia burguesa é o coroamento da história da humanidade. A tese ganhou força após a queda do muro do Berlim e no contexto neoliberal que marcou os anos seguintes a este evento. Na atual eleição brasileira parece que Lula vem decretar o fim da história na política nacional. Mas é isso? Acabou?
Com o início da propaganda política na televisão e a ampliação da vantagem de Dilma sobre Serra, a vitória lulista parece certa. Considerando a eminnte derrota da oposição também nos Estados (certamente a oposição sairá das urnas em 2010 menor que saiu em 2006), a impressão que se tem é que está terminada a discussão política no Brasil.
A direita herdeira de 1964 está a caminho do sepultamento. A social-democracia neoliberal e a hegemonia paulista centrada no PSDB também caminha para ser descartada de vez. Ainda que o PSDB consiga se reposicionar será em outro espectro ideológico. Os movimentos sociais estão contemplados em boa medida, assim como os partidos de centro e de esquerda moderada. A esquerda e a direita radical tem liberdade para expor sua posição, mas com atuação limitada a sua representação no Congresso Nacional. Os trabalhadores experimentam uma melhoria gradual em sua condição e a rica burguesia usufrui de estabilidade política e social com lucros recordes. Então, acabou?
A democracia burguesa com seus vícios e virtudes é o que escolhemos? A paternidade de Lula como fiador da boa intenção governamental é suficiente para a próxima década ou mais? Acabou?
Mais do que a atuação de Lula, a inépcia da oposição e da mídia conservadora em compreender este país deixará dois legados após outubro.
O primeiro legado é deslocamento do eixo político nacional para a chamada esquerda, em consonância com a vontade popular externada pelo brasileiro desde a primeira metade do século passado. Com o uso de vários artifícios, o conservadorismo político conseguiu manter o eixo político do governo brasileiro artificialmente alinhado ao pensamento político americano por décadas. A vitória de Lula deixou de ser um hiato na governança conservadora também pela alienação dos que se propuseram a se opor ao presidente. 
Outro legado é a legitimação de tudo que há de pior no governo do presidente Lula. Quando a mídia conservadora adotou uma postura parcial, justificou aos olhos do brasileiro os erros de Lula. Se o governo se aliou ao fisiologismo PMDBista, ficou claro que sem ele talvez não teria resistido ao ímpeto de setores golpistas. Quando parte da imprensa escolhe quais políticos devem ser atacados e quais devem ser poupados, aumenta a sensação de que corrupção permanecerá existindo mesmo com a troca dos eleitos. 
O consórcio mídia conservadora e oposição dão muito pouco crédito ao intelecto do eleitor. Acham que a grande maioria é incapaz de ter a mínima noção da disputa política que ocorre no país. Que se move apenas por influência da propaganda ou contexto econômico. A prova de que isso não é verdade é que bastou Lula ensaiar denunciar esta aliança em 2006 para atropelar Alkimin no segundo turno. 
Mas em que pese os erros da oposição e da mídia conservadora, a discussão política está terminada? Ou é a benção ao modelo atual ou é o retorno ao atraso? Chegamos lá? Acabou?
Sociedades injustas e desiguais como a nossa devem cobrar dos governos ou protegê-lo dos que supostamente querem implantar um governo pior? Dizer que as duas coisas não são antagônicas é possível, mas não quando se fala em alternativa política! Não pode ser que reste como opção acreditar que Aécio é mais "agregador", que Ciro pode ser "mais eficiente", ou que o caminho é a revolução proletária.
O país carece de lideranças de oposição que representem uma alternativa autêntica. Falta o Lula do Lula. Alguém que denuncie os 300 picaretas e não seja um deles. Que denuncie que é um absurdo bancos, empresas de comunicação, educação e saúde lucrarem bilhões tratando milhões de clientes como lixo.
Se o país é essa maravilha, porque não se pode ir a esquina da rua às 11:00 da noite? Aliás, não se pode ir a esquina nem às 11:00 da manhã se o indivíduo estiver falando ao celular ou com um relógio no braço. E quem anda quilômetros à noite por conta do péssimo transporte público tem que se acostumar a ser assaltado "x" vezes no ano. 
Isso tudo é fruto de séculos de desigualdade e agora que encontramos o fio da meada da nossa democracia burguesa os defeitos serão corrigidos?  Não carecemos de discussão política? É esta a conclusão que chegamos? É O Fim da História? 

sábado, 7 de agosto de 2010

O Guerreiro Plínio

Lembranças de Plinio, um lutador

O Plínio (PSOL) entrou no radar dos tuiteiros e da imprensa em geral, depois da boa atuação no debate da “Band”. Foi como se o Plinio tivesse sido descoberto agora. Engraçado isso.
O candidato a presidente pelo PSOL, aos 80 anos, é das poucas lideranças (com a incômoda companhia de Sarney, talvez) que já faziam política partidária antes de 64, e seguem na ativa até hoje. Plinio era deputado pelo velho PDC (Partido Demcrata Cristão) antes do golpe. Apoiava Jango, foi cassado na primeira lista depois do golpe.
Não tenho simpatia pelo PSOL, mas gosto muito do Plinio. Peço licença para algumas reminiscências. Eu o conheci pessoalmente em 88. Plinio tinha disputado a vaga de candidato do PT a Prefeito de São Paulo, com apoio da ala majoritária do partido (Lula e Dirceu incluídos); era considerado um “moderado”. Acabou derrotado por Luiza Erundina, tida como “radical”. O que fez? terminada a prévia, correu pro comitê de Erundina e declarou apoio aberto, total. Ao contrário de setores majoritários do PT, que torciam o nariz pra Erundina, Plinio foi leal durante a campanha (como Brizola faria com Lula em 89), e parceiro durante o difícil mandato de Erundina na Prefeitura.
Guardo daquela época ótimas lembranças. Uma delas é a dedicatória que Plinio fez no exemplar da “Constituição Cidadã” que acabava de ser aprovada, e que eu ganhara de meu pai. ”Para o Rodrigo, a certeza de que, se lutarmos bastante, viveremos em um país bem melhor”, escreveu ele – que ajudara a redigir a nova Carta como deputado constituinte.
Plinio seguiu lutando. Costumava reunir muita gente em reuniões aos sábados, para debater a “Conjuntura Nacional”. Muitas aconteciam nos fundos de igrejas em São Paulo. Plinio tinha o apoio da velha guarda da esquerda católica (que logo depois seria dizimada por Ratzinger). Mas havia também o pessoal jovem, recem-saído da universidade e sem qualquer vínculo com a Igreja, alguns que tinham até certa ligação com o PCB (como esse que escreve).
No fim dos anos 80, Plinio e Chico Whitaker (então vereador pelo PT) alugaram uma casa na Barra Funda em São Paulo (a “casa da rua Marta”), onde reuniam jovens economistas, cientistas políticos, jornalistas, historiadores, sindicalistas e militantes em geral. A idéia era formular propostas para o debate interno no PT e na esquerda. Lembro bem que o Plinio achava um equívoco formulações de petistas que, naquela época, apostavam na formação de “conselhos populares” (sovietes?!) para substituir o poder das Câmaras Muncipais e assim criar o embrião de uma nova “institucionalidade”.
Para ele (e eu concordava), era coisa de gente fora da realidade: “isso só se faz em conjunturas revolucionárias; no Brasil, a luta atual é pra melhorar a democracia”, dizia. Mas, aos poucos, o Plinio mudaria.
Em 90, virou candidato ao governo de São Paulo. E lá fui eu ajudar na campanha. A ala majoritária do PT não se esforçou muito, e ele teve cerca de 10% dos votos. Plinio já começava a mostrar uma característica que só se aprofundaria nos anos seguintes: um certo desânimo com a política puramente institucional, e a aposta no fortalecimento dos movimentos sociais. No segundo turno pra governador em 90, sobraram Fleury (PMDB) e Maluf (PDS). Plinio defendia voto nulo. A turma que se reunia na rua Marta reagiu. Nunca vi aquilo. O velho militante teve que engolir jovens militantes a dizer que era necesário votar em Fleuy, sim, para derrotar o “inimigo principal”.
Lembro de uma jovem amiga, arquiteta e muito inflamada, dizendo que Plinio estava sendo sectário, míope. Ele só franzia a testa, como faz até hoje nos momentos de gravidade. Mostrou grandeza porque ouviu tudo calado. Mas no dia seguinte saiu na imprensa que ele pessoalmente pregaria voto nulo – sim! Acabei votando no Fleury no segundo turno (será que o Plinio é que estava certo?).
O velho militante católico, moderado, caminhava para a esquerda. Sairia do PT quinze anos depois, seguindo os mesmo passos de Erundina e Chico Whitaker. Ao longo dos anos, Maluf – ex ”inimigo principal” – virou aliado do governo Lula em alguns momentos. Fleury sumiu. Acho que está no PTB (partido que também compôs a base de Lula).
Plinio se aprofundou nas questões sociais. Venceu um câncer, e seguiu a militar pela Reforma Agrária. Passei anos sem falar com ele (eu estava tentando ganhar a vida, trabalhando feito louco como jornalista, distante dos debates). Até que em 2005 nos reencontramos: eu era repórter da Globo, e ele candidato a presidente do PT, durante a crise pós-Mensalão. Bem-humorado, interrompeu a coletiva no meio da rua, pra dizer: “esse aqui, olha, já trabalhou comigo, agora está aí na Globo…” Falou sem ódio, bem-humorado. Eram os fatos.
Em 2006, uma boa surpresa: quando saí da Globo, de forma tumultuada, recebi centenas de telefonemas de apoio e solidariedade. Um deles me emocionou especialmente. Era Plinio: “Olha, Rodrigo, eu já tô meio velho mas sigo por aqui, se precisar de mim sabe que não fujo da briga”. Fiquei surpreso, e grato. Essas coisas a gente não esquece. Gosto de quem não foge da briga, e mais anda de quem é capaz de fazer isso sem agressividade desmedida. É o caso do Plinio.
Nos últimos anos, retomamos algum contato: em entrevistas na “Record News”, em festas na casa de amigos comuns. Há 40 anos de diferença separando Plinio e esse humilde escrevinhador. Mas há uma ligação afetiva que não se desfaz.
Não concordo com tudo o que ele diz. Acho que a esquerda deveria reconhecer os avanços da era Lula. Deveria partir disso para construir uma alternativa melhor, e não atacar o legado de Lula. Por essa razão, provavelmente, não votarei nele dessa vez. Mas minha admiração e meu respeito pelo Plinio são irrevogáveis.
Quando eu o vi brilhar sozinho, no chato debate da “Band”, relembrei todas essas histórias. E, sozinho na sala de casa, vibrei comigo mesmo: “dá-lhe, Plinio!” Já passou da hora de alguém escrever a biografia do Plinio, um lutador, um cristão socialista que ama o Brasil.

IBOPE/Agosto - Bahia

Fonte: O Globo

Pesquisa Ibope, encomendada pela TV Bahia, afiliada da Rede Globo na Bahia, mostra o governador Jaques Wagner sendo reeleito no primeiro turno. Ele tem 46% das intenções de voto, seguido por Paulo Souto (DEM), com 19%, Geddel Vieira Lima, com 11%, e Carlos Nascimento (PSTU), com 1%.
Há duas semanas, pesquisa Datafolha mostrava o petista com 21 pontos de vantagem sobre Paulo Souto (DEM). O Ibope hoje dá 27 pontos de vantagem.
Para o Senado, o candidato à reeleição César Borges (PR) lidera com 38%. Em segundo lugar, empatados tecnicamente, estão a deputada federal Lídice da Mata (PSB), com 25%, e Walter Pinheiro (PT), com 23%. José Ronaldo (DEM) tem 10% e o deputado federal José Carlos Aleluia (DEM) 7%. Os indecisos são 48%.

domingo, 1 de agosto de 2010

Pesquisas - Julho

Na eleição americana que levou Obama à Casa Branca as pesquisas eleitorais se destacaram pela imprecisão. Houve distorção para todo lado. A história recente das pesquisas no Brasil atesta que a metodologia dos institutos permite uma aferição com alto grau de confiabilidade. Só a título de exemplo, é possível verificar que as pesquisas de boca-de-urna dificilmente divergem muito do resultado das urnas. 
O que comprometeu a credibilidade das pesquisas no Brasil foi a suspeita de uso político. Muitos institutos, dentre eles o Ibope, erraram nos últimos anos quase sempre contra candidatos de esquerda. O Ibope é ligado a rede Globo e muitos donos de afiliadas desta são filiados ao DEM ou PMDB. Atualmente o Datafolha tem sido questionado por divergir dos demais institutos e por sua ligação com a Folha de São Paulo. O jornal é acusado de ter uma cobertura parcial da campanha. A suspeita é, no mínimo, natural. Especialistas, entretanto, afirmam que o índice de acerto no Brasil é muito bom. Muito melhor que o índice americano.
Nos EUA uma prática de cobertura jornalística pouco científica se revelou eficaz. Muitos veículos passaram a divulgar a média das principais pesquisas de opinião. Tanto em relação às prévias quanto à eleição presidencial, a média das pesquisas se aproximou muito do resultado das urnas. Aplicando a mesma lógica às pesquisas brasileiras temos a seguinte evolução nas intenções de voto:


O gráfico acima é praticamente ajustável à margem de erro de todos os institutos. Há maior discrepância é com o Datafolha, segundo o qual Dilma ainda não pontuou acima de Serra. 
O Vox Populi apresenta um panorama mais coerente com a média destacada. Segundo este instituto, Dilma passou Serra e vem aumentando a vantagem de forma mais lenta do que se aproximara do tucano.
De um modo geral, o Ibope vem confirmando o Vox Populi na trajetória dos principais candidatos. Este foi o instituto que divulgou a pesquisa mais recente, apresentando Dilma com 39%, Serra com 34% e Marina com 7%.      
Estas informações revelam o seguinte:
1. Marina está há muito estagnada. Com pouco tempo de TV e pouca estrutura vai ter dificuldade em criar embaraços aos outros principais candidatos.
2. Dilma passou Serra em meados de maio e segue à frente. O empate técnico só se sustenta apenas no Datafolha.
3. Se a tendência de afastamento de Dilma e Serra se mantiver, há grandes chances de a eleição ser definida no primeiro turno. Considerando a popularidade de Lula, as notícias sobre as dificuldades na campanha de Serra e o maior tempo de TV da petista, este não é um mal palpite.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Datafolha Bahia - Julho.

Estimulada:

Wagner 44%
Paulo Souto 23%
Geddel 13%

Espontânea:
Wagner 25%
Paulo Souto 7%
Geddel 5%

Rejeição:
Wagner 16%
Paulo Souto 29%
Geddel 18%

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Marcas das Nossas "Revoluções"

Cartaz dos revolucinários de 32 convocando os paulista à luta armada.

 Divisão dos estados em que cada candidato foi vencedor no segundo turno de 2006. 

As peculiaridades das próximas eleições mexem com algumas feridas da história do país. Muito se fala dos reflexos do último período de governo militar, tendo em vista que os dois principais candidatos estiveram em oposição ao golpe de 64. Porém, chama atenção também a divisão política regional do país.
A nítida divisão eleitoral de 2006 está se reproduzindo em 2010. Pesquisas de opinião apontam Serra com vantagem na metade Sul e Dilma melhor na metade Norte do país. A origem nordestina de Lula não explica tal divisão. É prematuro atribuir o fenômeno exclusivamente a abrangência geográfica dos programas sociais. A compreensão do momento político passa pela análise de questões do século passado.
Lula tem forte identificação com a controvertida figura de Getúlio Vargas, presidente empossado pela Revolução de 1930. Desde a base sindical ao apelo nacionalista apoiado na estatal do petróleo, o atual líder da nação guarda semelhanças com aquele. Não é sem razão que sobre o ex-metalúrgico também paira a aura de pai dos pobres.
Dilma teve sua carreira política radicada no Rio Grande do Sul, terra de Getúlio. A ex-ministra é de Minas Gerais, estado que apoiou a Revolução de 30. Dilma foi militante de um grupo guerrilheiro que se opôs ao golpe de 64, o que naturalmente força o país a uma reflexão sobre a participação dos militares na política nacional.
Já Serra é mais um político paulista do PSDB indicado à disputa presidencial. O partido governou o país entre 1995 e 2002 (com o paulista FHC) e foi a principal legenda de oposição ao governo Lula. Em 2010 o tucanato deixou clara a hegemonia da ala paulista em seu comando, assim como o fizera ao preterir Aécio em 2006 e Tasso Jereissati em 2002. Por isso e por estar governando São Paulo há 16 anos, reforçou a imagem de que busca a hegemonia de São Paulo na política do país. Imagem esta que remete à Revolução de 1932.
O dia 9 de julho, data do início da Revolução de 32, é a data cívica mais importante para os paulistas. É como o 2 de julho para os baianos 20 de setembro para gaúchos. Mas ao contrário de outras datas cívicas celebradas, a Revolução de 32 não é considerada pelo restante do país como uma luta de progressistas contra conservadores. É vista como uma luta reacionária e egoísta de São Paulo contra o Brasil.
O fato é que em julho de 1932 o país vivia sob um “Governo Provisório” nomeado por militares desde novembro de 1930. Getúlio Vargas chegou ao poder por um golpe eclodido após São Paulo tentar levar à presidência mais um paulista, rompendo com o pacto café-com-leite.
É difícil aplicar a lógica maniqueísta ao papel dos paulistas no início da década de 30. Até então, São Paulo e Minas Gerais, os dois estados mais ricos e populosos, revezavam-se no poder do país. Se não era justo com as demais federações, tinha sua lógica. Sob o efeito da crise de 29, os paulistas quebram o pacto. Indicado pelo presidente Washington Luís, o presidente/governador de São Paulo, Júlio Prestes, foi eleito em 1° de março de 1930. A rigor, em 32 o estado do presidente eleito lutou contra um regime de exceção.
Mas o raciocínio democrático eleitoral é relativo para o caso. É preciso imaginar o que representava a eleição no Brasil à época. As mulheres e os analfabetos não podiam votar, o que reduzia o número de eleitores a menos de 10% da população. Além disso, o voto era aberto e não havia Justiça Eleitoral. Ou seja, na prática a eleição era uma decisão oligárquica, geralmente tomada em conjunto com quem já ocupava o poder. Em um contexto tão precário, bastou a ruptura das oligarquias dominantes para que a eleição fosse contestada e taxada de ilegítima pelos apoiadores de Getúlio Vargas.
A Revolução de 30*, à semelhança do golpe de 1964, foi um golpe militar apoiado por lideranças civis. Vargas (que foi sargento) sagrou-se vitorioso fundamentalmente pelo apoio que tinha dentre os militares. Os reflexos da crise de 29 e a divisão das principais lideranças civis do país (mesmo no âmbito interno de Minas e São Paulo havia fissuras) abriram espaço para que líderes militares apoiassem alguém mais identificado com seus objetivos. Isto ficou claro na anistia concedida por Vargas aos militares envolvidos em revoltas na década de 20. Vargas também implementou propostas defendidas pelo tenentes, além de nomear vários deles como interventores nos estados.
A Revolução de 32 foi uma das poucas revoltas na nossa história em que houve engajamento popular. Entretanto, porque ela é tão mal vista pelos brasileiros não-paulistas? Porque a causa paulista não era o interesse do Brasil e porque o bom governo de Getúlio o absolveu, pelo menos até o Golpe de 37.
A Revolução de 32 foi movida por interesses que ensejaram a ruptura com a política café-com-leite. Interesses que de certa maneira permearam e permeiam a vontade da elite paulista. Desde o início do século passado, São Paulo é economicamente muito mais forte que o restante do país. Ainda hoje é grande a desproporção entre o que o estado arrecada para a federação e o que esta lhe devolve. Em 32 havia o interesse de não delegar a políticos outros o poder que as elites paulistas entendiam lhe pertencer. Se não obtivessem o poder de controlar o país, almejavam controlar o estado como nação autônoma.
A marca deste pensamento da política paulista ainda não deixou de existir. O governador paulista Adhemar de Barros, combatente por São Paulo em 32, foi um dos apoiadores civis do golpe de 1964. Aos seus olhos deve ter parecido fora de lugar o poder nas mãos do gaúcho João Goulart. De alguma forma o mesmo pensamento norteou as escolhas do PSDB nos últimos anos. Ao PSDB paulista é preferível perder a eleição presidencial a deixar o controle do partido nas mãos de outrem.
O Sul e Sudeste são para o restante do Brasil o que os EUA são para a América Latina. São forças econômicas demandando poder político. O 9 de julho continua sendo comemorado apenas em um pedaço do país porque simboliza a ruptura de interesses que permanecem divergentes. Esta é base da divergência da década de 30 e é a raiz da atual divisão.

*A Revolução 30 foi o berço do golpe de 1964. Quase todos os comandantes militares do golpe militar de 1964 eram ex-tenentes de 1930, tais como Ernesto Geisel, Castelo Branco, Médici, Juraci Magalhães e Juarez Távora.